CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 3
Peach era uma criatura da noite. Claro, ele conseguia se arrastar para fora da cama para tirar fotos de manhã ou comparecer a uma sessão se precisasse, mas quando se tratava de tarefas que exigiam foco, precisão e um toque criativo, como edição de fotos, composição de layouts ou corte de vídeos, ele preferia trabalhar à noite.
Então, na noite passada, depois de voltar do evento, mesmo estando morto de cansaço, ele ainda acabou sentando para editar o primeiro rascunho das fotos que precisava enviar. Quando finalmente foi para a cama, já passava das 5 da manhã. Ele pensou que seu próximo trabalho não seria até a tarde, então ficar acordado até o amanhecer não seria um problema.
Ele não esperava receber uma ligação às dez da manhã.
Peach estava tão grogue que uma parte dele queria ignorar a ligação completamente. Mas assim que conseguiu se recompor o suficiente para verificar o nome piscando em seu telefone, ele despertou completamente.
Porque aqueles olhos cinzentos e esfumaçados o haviam atormentado a noite toda.
O pensamento neles o arrastou para fora da cama na noite anterior, forçando-o a vasculhar cada pedaço de trabalho que já havia encontrado. Tinha levado apenas dez minutos para encontrar o que procurava.
Theerakit Kian Arseny, um empresário meio tailandês, meio russo e seu chefe temporário para a coleção de fragrâncias de outono da marca Arseny, que Peach estava gerenciando atualmente.
Então, quando viu o nome Theerakit aparecer em sua tela às dez da manhã, tudo fez sentido. Ele tinha certeza de que não conhecia mais ninguém com esse nome. Combinado com a memória de seu telefone sendo brevemente confiscado na noite anterior, não foi difícil deduzir quem estava ligando.
A verdadeira questão era: por quê? Por que ele estava ligando? Por que não ligar para Aran?
Claro, essas perguntas permaneceram firmemente em sua cabeça. Tudo o que ele pôde fazer foi se arrastar para fora da cama, lavar o rosto, tomar um banho rápido e se vestir.
No entanto, ele hesitou por um bom tempo ao escolher sua roupa. Sua vida era geralmente quieta e sem mudanças, tanto que poderia até parecer um pouco chata. Ele não gostava da vida noturna e preferia ficar em casa. Em raras ocasiões, fazia uma viagem de mochila sozinho, câmera na mão, escolhendo o silêncio de uma jornada solitária em vez de viajar com um grande grupo.
Essa simplicidade se estendia ao seu guarda-roupa. A maioria de suas roupas eram simples e funcionais: camisetas básicas, shorts e algumas camisas de botão de cores sólidas para o trabalho. Ele tinha um terno sob medida, apenas para o caso de precisar comparecer a um evento formal.
Mas agora, diante da necessidade de escolher uma roupa para algo mais significativo, ele começava a ver a desvantagem de manter seu guarda-roupa tão minimalista. Não era como se ele estivesse se vestindo para um encontro, longe disso. Mas a pessoa que estava prestes a encontrar não era qualquer um. Ele era um chefe da máfia meio russo.
Suas roupas relaxadas de sempre pareceriam desrespeitosas? Mas aparecer de terno e gravata em plena luz do dia pareceria ridículo.
No final, levou quase uma hora para decidir por uma calça preta justa e uma camisa cinza de botão oversized. A essa altura, a ideia de fazer um café preto forte antes de sair já havia desaparecido completamente. Ajustando a alça de sua pequena bolsa transversal, ele correu para baixo, sem querer arriscar fazer o outro homem esperar.
No momento em que Peach saiu de seu condomínio, um carro de luxo preto e elegante parou no meio-fio ao lado dele. A janela traseira abaixou apenas o suficiente para que ele vislumbrasse aqueles olhos cinza-fumaça. Imediatamente, ele abaixou a cabeça em um aceno educado e acelerou o passo em direção ao carro.
Ao alcançar a maçaneta da porta, hesitou por um breve momento. Ele não era um convidado. Isso definitivamente não era um encontro, nem de longe. A coisa mais próxima com que poderia comparar era ser um subordinado. E, além disso, sentar mais longe do chefe aumentava suas chances de fuga caso as coisas dessem errado.
Após uma fração de segundo de hesitação, abriu a porta do passageiro da frente e entrou. Mas antes que pudesse fechá-la, o homem no banco de trás, exalando um ar de autoridade silenciosa, falou em voz baixa e autoritária.
— Sente-se atrás.
A mão de Peach congelou na maçaneta da porta.
Por um momento, ele cogitou a ideia de ser teimoso e recusar, mas a imagem mental de ser morto antes mesmo de ter a chance de encontrar café o parou.
Depois de pesar todas as suas opções, saiu, deu a volta no carro e sentou-se no banco de trás, sentindo-se totalmente sem opções.
Peach sentou-se rígido como uma tábua. Seu desconforto era evidente em suas sobrancelhas franzidas. Sua mente estava acelerada, tentando descobrir por que fora convocado. Ele tinha feito algo para ofender esse cara? Repassou os eventos da noite passada em sua cabeça, mas não conseguiu pensar em nada impróprio.
A menos que... talvez o Grande Chefe da Máfia estivesse guardando rancor por algo que ele disse, pelo fato de ter rido. Mas se isso fosse sobre raiva e retaliação, não faria mais sentido lidar com ele na calada da noite em vez de chamá-lo em plena luz do dia?
— Por que está tão tenso? Você não está nem metade ousado do que estava ontem à noite. — Observou Thee, seu olhar afiado fixo nele.
Peach saiu de seus pensamentos em espiral, forçando um sorriso inexpressivo e tentando suavizar as coisas. Não que ele achasse que ajudaria muito.
— Eu posso ter bebido um pouco demais ontem à noite. Desculpe se eu disse ou fiz algo inapropriado.
— Eu não disse que foi inapropriado. — respondeu Thee calmamente, seus olhos ainda o perfurando, sua voz carregada com algo quase provocativo. — Por que você não está falando como fez ontem à noite?
— Bem, ontem à noite, eu não sabia quem você era. — Deixou escapar Peach, passando a mão pelo cabelo em frustração. Socializar não era exatamente seu forte, e toda essa dança de escolher cuidadosamente as palavras e andar na ponta dos pés estava começando a irritá-lo.
Thee parou, a nitidez em seu olhar suavizando ligeiramente, quase como se estivesse se divertindo. Quanto mais Peach se contorcia, mais entretido ele parecia estar.
— Você está com medo agora que sabe?
— Eu estava com medo ontem à noite também. — disse Peach em um tom neutro, virando-se para dar-lhe um olhar inexpressivo. — Quem não teria medo de alguém rodeado por guarda-costas com armas na cintura?
Os lábios de Thee se contraíram, seu tom firme, mas inegavelmente presunçoso.
— Então não é diferente.
Peach revirou os olhos com tanta força que quase teve um torcicolo. Não podia acreditar que estava tendo essa conversa. Lidar com alguém cujo senso de normalidade estava a anos-luz da pessoa média era mentalmente exaustivo. Caras importantes eram uma coisa, mas um chefe da máfia de tráfico de armas em grande escala? Sério, quem não estaria mais aterrorizado?
Peach murmurou algo baixinho, resmungando em um tom tão baixo que não podia ser entendido, mas não ousou dizer em voz alta. No final, soltou um longo suspiro, decidindo que provavelmente era mais inteligente focar na situação estranha à sua frente.
Sutileza não era exatamente seu forte, então foi direto ao ponto.
— Então, hum... por que exatamente você me chamou aqui, Sr. Arseny? — Ele perguntou, franzindo a testa desconfiado. — Não é porque você está bravo com a noite passada, é?
Thee o observava com diversão mal contida, como um gato brincando com um rato nervoso. Embora seu rosto severo e contemplativo permanecesse impassível, seus olhos brilhavam com malícia. Havia um ar incomum de deleite irradiando dele, o suficiente para que o guarda-costas/motorista no banco da frente não conseguisse evitar dar olhadas no espelho retrovisor. Era francamente surpreendente. Nem mesmo os passatempos favoritos de Thee conseguiam provocar esse tipo de reação nele.
— Como está seu braço?
Peach piscou, surpreso. Olhou para o braço antes de se lembrar. Certo, na noite anterior, ele tinha se arranhado feio o suficiente para que desviassem para um hospital para uma vacina antitetânica. Ele nunca pensou que Thee realmente se lembraria, no entanto.
— Está bem, foi apenas um pequeno arranhão. — respondeu rapidamente. — Já tomei a vacina, então estou bem. — Hesitou por um momento, pressionando os lábios enquanto sua confusão crescia. — Espere... você me chamou só para perguntar sobre isso?
— Eu liguei para perguntar sobre aquele garoto modelo. — disse o chefe da máfia casualmente, recostando-se como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Você me disse que eu deveria começar flertando, certo? Me ensine como.
— Eu?! — Peach apontou para o próprio peito com um dedo, olhos arregalados como se tivessem acabado de lhe dizer que a Terra era plana. Qualquer medo que restasse desapareceu instantaneamente, varrido pelo puro absurdo do que acabara de ouvir. — Uh. Só para você saber, Sr. Arseny. Fui dispensado há dois meses porque eu era, abre aspas, ‘chato demais para ser namorado’. Aparentemente, sou melhor como terapeuta do que como parceiro. E você acha que sou qualificado para te ensinar a flertar? Tem certeza disso? Sério?
Os lábios de Thee se curvaram em um leve sorriso. Não apenas ele parecia completamente imperturbável pelo olhar arregalado de Peach, mas na verdade parecia mais divertido do que nunca. Quando falou, seu tom transbordava confiança.
— Bem, você não deveria ser um bom conselheiro? Você também é próximo daquele garoto modelo. Parece uma escolha sólida para mim.
Dessa vez, foi Peach quem abriu a boca para argumentar, mas logo a fechou, sem saber o que dizer. Por mais que quisesse negar, Thee não estava exatamente errado. E para piorar a situação, suas palavras o atingiram em cheio. Mesmo assim, por mais lógico que parecesse, Peach não conseguia imaginar como poderia ajudar um chefe da máfia com... isso.
Com um suspiro profundo, resignou-se ao fato de que as coisas estavam saindo do controle rapidamente. Mas, por outro lado, parte dele estava genuinamente preocupada com seu amigo mais novo. Aran não tinha exatamente o melhor julgamento quando se tratava de pessoas. A maioria das pessoas ao redor de Thee parecia tão distante do bom senso quanto o próprio homem. Como alguém que ainda se agarrava a um pingo de racionalidade, Peach se sentiu na obrigação de intervir.
— Posso perguntar o que você realmente pensa de Aran? — Peach finalmente arriscou.
Thee não respondeu imediatamente. Por um momento, desviou o olhar, como se considerasse profundamente algo. Mas quando olhou de volta, sua expressão era fria e composta, quase indiferente.
— Quase o meu tipo. Eu não me importaria de fazer sexo com ele.
— E... quanto a qualquer outra coisa? — Peach pressionou.
— Interessante. Rosto bonito.
— ...
Peach bateu na testa com a palma da mão, sentindo o início de uma dor de cabeça pulsando atrás das têmporas. Claro, ele sabia que Thee era direto a ponto de ser alheio às normas sociais, mas esse nível de honestidade brutal era quase demais.
— Mas o Aran não foi bem claro quando disse que não estava interessado em um caso de uma noite com você? — Peach disse rapidamente, seu tom firme enquanto tentava, desesperadamente, injetar algum bom senso básico em Thee. — Acho que deveríamos respeitar os limites dele. — Ele se inclinou para frente, sua voz firme apesar do nervosismo. — Olha, eu sei que alguém como você provavelmente tem muitas maneiras de fazer Aran obedecer. Mas forçar alguém emocionalmente ou de outra forma não levará a nada de bom a longo prazo. Honestamente, não acho que valha a pena.
Thee permaneceu em silêncio, seu olhar caindo como se estivesse refletindo sobre algo. Preocupado com a segurança de seu amigo, Peach falou novamente rapidamente.
— Você disse que Aran era mais interessante do que os modelos usuais que você conhece, certo? — Peach provocou, sentindo-se como se estivesse tentando domar um leão com nada além de um palito de dente. — Por que não começar com algo normal? Sabe, sem esperar que o sexo seja o foco principal? — Sugeriu cautelosamente.
— Mas esse é o meu foco. — declarou Thee com naturalidade.
Peach mal resistiu à vontade de bater a testa contra a janela do carro... Seu cérebro parecia frito, e ele nem tinha feito nada ainda. Ele se pegou sonhando acordado com um Americano gelado para acalmar os nervos. Que diabos de confusão era essa? A vontade de gritar de frustração borbulhou, mas ele a conteve. De jeito nenhum ele arriscaria chatear o chefe da máfia sentado bem ao lado dele.
— Considere isso apenas como uma parte do todo, ok? — Peach tentou novamente, forçando um tom calmo. — Se você acha que Aran é interessante, por que não tentar conhecê-lo? Converse com ele. Quem sabe? Pode se transformar em algo real. Talvez até amor. E quando isso acontecer, o sexo vai apenas... acontecer naturalmente, sabe? Não precisa ser o objetivo.
Ele entregou a explicação em um único fôlego, mal pausando. Para sua surpresa, Thee não interrompeu nem discutiu. Simplesmente ouviu, sua expressão era séria.
— É uma ideia interessante. Você é próximo do Aran, certo? Me ajude com isso.
Peach quase revirou os olhos, mas conseguiu se conter. Claro, Thee abordaria o cortejo de alguém como uma transação comercial. Esqueça o romance.
— Nós não somos tão próximos. — respondeu Peach com um suspiro. — Trabalhamos muito juntos, claro, mas não é como se fôssemos melhores amigos ou algo assim. Duvido que eu seja de muita ajuda.
— Eu não espero tanto de você. — dispensou Thee, como se não importasse.
Antes que Peach pudesse descobrir o que pensar sobre isso, Thee sinalizou para o motorista e acenou para que ele ligasse o carro. Nenhuma explicação adicional. Nenhuma clarificação.
Peach observou o carro se afastar suavemente, seus olhos arregalados e em pânico correndo ao redor. Ele pensou que Thee apenas o chamaria para um bate-papo rápido e depois o expulsaria do carro. Não é assim que sempre acontece nos filmes?
— Sr. Arseny!
— Apenas me chame de Thee. Largue o ‘Arseny’, é irritante. — Interrompeu Thee, seu tom carregado de irritação. No entanto, a maneira como ele olhou para Peach pelo canto do olho parecia sugerir que ele estava esperando pela próxima pergunta.
— Uh, bem, Sr. Thee. Então... para onde exatamente estamos indo?
O canto da boca de Thee se curvou em um sorriso sutil, seus olhos brilhando com leve diversão.
— Para o almoço. Alguma coisa especial em mente?
Peach ainda estava tentando processar a situação, mas a menção de comida conseguiu tirá-lo ligeiramente de sua confusão. Sua mente foi imediatamente para a única coisa que ele desejava desde que atendeu o telefone naquela manhã.
— Podemos pegar um café primeiro? Um Americano gelado, dose extra, por favor. — Ele deixou escapar quase desesperadamente.
Ele precisava de algo para se concentrar, e a cafeína estava definitivamente no topo da lista.
FIM DO CAPÍTULO