CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 2
O homem estava a apenas um braço de distância. Agora que estava em pé em toda a sua altura, era ainda mais óbvio o quão alto ele era, provavelmente beirando os 1,90 metros. Ombros largos e uma estrutura sólida davam-lhe a aparência de algum tipo de atleta mestiço.
Sob a luz mais clara, seus olhos cinza esfumaçados eram ainda mais marcantes, quase hipnóticos. Seu maxilar forte, levemente sombreado com uma barba por fazer de três dias, aumentava sua aura intimidadora. Claro, ele era bonito, não havia como negar, mas a vibração perigosa que irradiava ofuscava completamente qualquer atração. Não era o tipo de visual que fazia você desmaiar, era o tipo que fazia você querer correr para salvar sua vida.
— Você não vai abrir isso com sua mão desse jeito. — disse o homem em um tom calmo e prático, estendendo uma mão expectante.
Peach piscou, confuso. Sua guarda ainda estava alta, mas após um momento de hesitação, entregou a garrafa de água. Mais do que tudo, sentiu uma estranha sensação de familiaridade com o homem à sua frente, mas por mais que tentasse, não conseguia situá-lo.
— Obrigado. — murmurou Peach enquanto o cara torcia facilmente a tampa e devolvia a garrafa aberta. Peach se afastou para garantir que a água não espirrasse em ninguém, depois inclinou-a para derramar sobre a ferida, deixando-a lavar o sangue.
— É isso que você ganha por meter o nariz onde não deve. — comentou o homem, sua voz profunda carregando um toque de reprovação.
Peach parou por um segundo, a água diminuindo para um fio. Então deu um leve sorriso e voltou a limpar a ferida, sua voz leve e tranquila ao responder.
— Sim, você está certo. Não é da minha conta. Mas o que posso fazer? Eu não podia simplesmente deixar aquele garoto assim. Se houver algo que eu possa fazer para ajudar, provavelmente farei. — Ele deu de ombros e pegou alguns lenços para secar suavemente o braço. A ferida não era tão ruim, apenas um arranhão, nada profundo, mas ele definitivamente precisaria de uma vacina antitetânica.
— Você já pensou que ajudar os outros pode te meter em problemas? — O homem alto e de ombros largos cruzou os braços, estreitando os olhos em clara desaprovação.
— Estou sempre com problemas, então sim, estou acostumado. — Peach riu baixinho, parando brevemente antes de acrescentar em um tom resignado. — Mas falando sério, você poderia tentar não dar em cima do garoto? Eu preferiria não lidar com ele lutando com sua... situação ou seja lá o que for. Toda vez que há drama, sou eu quem fica preso no meio.
A expressão do outro homem endureceu instantaneamente. Seu rosto já intimidador escureceu ainda mais, e seu tom, misturado com uma raiva mal contida, saiu afiado.
— Não há nada que eu queira que eu não possa ter.
O peso de suas palavras pairou no ar por um momento tenso antes de Peach de repente cair na gargalhada incontrolável. Ele tentou sufocá-la, mas isso só o fez engasgar, tossindo e rindo ao mesmo tempo. Eventualmente, conseguiu se recompor, embora o olhar do outro homem só ficasse mais sombrio a cada segundo.
— Desculpe, desculpe. — disse Peach, levantando a mão em sinal de rendição, sua voz ainda tremendo de diversão. — Eu não quis rir; só me pegou desprevenido. Quem fala coisas assim na vida real? É tão... exagerado. Mandão e completamente tirânico.
A carranca do homem se aprofundou, e a irritação crescente em seu rosto rapidamente fez Peach levantar as duas mãos em um gesto de desculpas, seu largo sorriso desaparecendo em algo mais tímido.
Minha maldita boca grande, ele praguejou internamente.
— Se você realmente gosta do Ran, por que não abordá-lo corretamente? — Sugeriu Peach, tentando mudar o clima e desviar qualquer ira iminente. — Quero dizer, esses dois não são oficialmente um casal ainda, certo? Aran ainda está solteiro. Se você apenas fizer uma jogada como uma pessoa normal, pode funcionar.
A carranca não cedeu. Na verdade, o cara parecia ainda mais irritado, o maxilar tenso enquanto olhava para Peach com desdém.
— Por que eu deveria perder meu tempo com algo assim? — respondeu o homem, cruzando os braços ainda mais forte, sua postura inteira praticamente gritando energia de chefe da máfia. Seu olhar penetrante continha uma pitada de desprezo, como se a ideia de seguir as regras estivesse abaixo dele.
Olhando para ele agora, esse cara não seria um peixe fora d’água em um daqueles romances de macho alfa, do tipo “mafioso agarra e beija”. Sim, esse cara preenchia todas as categorias dos clichês.
Peach acenou com a cabeça algumas vezes. Sim, ele já tinha lido esse tipo de romance antes. O herói nessas histórias era sempre o mesmo, agressivo, barulhento, dominante a ponto de ser controlador e talvez um pouco desequilibrado.
Honestamente? Esse cara estava acertando em cheio.
— Controle suas emoções, cara. Quem em sã consciência gosta de ser mandado ou pressionado? A menos, é claro, que goste de masoquismo. — Peach balançou a cabeça, encostando-se casualmente na lateral de seu carro pequeno. Do jeito que essa conversa estava indo, levaria muito mais tempo do que ele planejara. Ele ainda tinha trabalho para terminar esta noite, mas claramente isso não aconteceria mais.
— É só uma noite. Por que fazer tanto drama por causa disso?
— Mesmo que seja apenas coisa de uma noite, o sexo deve ser sobre satisfação mútua. É sobre aproveitar o momento juntos, não uma pessoa pegando o que quer enquanto a outra apenas aceita, ou pior, usando isso como algum tipo de moeda de troca. Onde está a graça nisso?
O tom de Peach era sério agora, sua expressão tão sincera quanto conseguia. Para ele, sexo era algo que deveria acontecer entre duas partes consensuais e dispostas. A ideia de forçar alguém, pressioná-lo ou até mesmo jogar dinheiro por aí para conseguir o que queria, tudo isso lhe dava arrepios.
— É só sexo. — murmurou o aspirante a mafioso, embora soasse um pouco menos impetuoso desta vez. Ainda desdenhoso, claro, mas mais quieto.
— Você já tentou de verdade? — Peach retrucou, levantando uma sobrancelha. — Sexo onde as duas pessoas estão a fim, ambas se divertindo, não apenas correndo para acabar logo. Aposto que é muito melhor.
Ele soava como um especialista, mas a verdade era que sua experiência era quase ridiculamente mínima. Ele teve três relacionamentos, nenhum dos quais terminou bem. Claro, teve alguns casos de uma noite em sua época, mas isso parecia ter sido há uma vida inteira. Hoje em dia, estava ocupado demais para sequer pensar em ficar com alguém.
O rosto do Sr. Máfia ficou inexpressivo enquanto ele afundava em pensamentos profundos, suas sobrancelhas escuras franzidas como se tentasse resolver um quebra-cabeça impossivelmente complexo. Peach só podia ficar ali, esperando. Ele não conseguiu evitar soltar um bocejo suave. Estava funcionando no limite há dias, virando noites e trabalhando sem parar.
Hoje começou com uma sessão de fotos matinal e se arrastou até... bem, agora.
Peach queria dizer ao Sr. Máfia para ir para casa e pensar nas coisas lá. Ele também gostaria de ir para casa, honestamente, estava prestes a desmaiar de pura exaustão.
— Me dê seu telefone.
Peach, que estava à beira de cochilar onde estava, voltou sua atenção. Ele piscou para a mão estendida, confuso sobre como a conversa deles havia se voltado para o telefone. Quando o cara repetiu a ordem, seu tom profundo e autoritário não admitiu contestação.
Peach suspirou e puxou o telefone, desbloqueando-o sem protestar.
O que ele poderia dizer?
O cara tinha pelo menos o dobro do tamanho dele, tinha dois guarda-costas o cercando e, ah sim, ambos estavam armados. Qualquer que fosse o plano desse mafioso, ele definitivamente não estava tentando roubar um telefone velho e surrado como o dele.
Peach ficou lá, observando enquanto o homem mexia em seu telefone. Aqueles olhos cinza-fumaça continham uma estranha familiaridade, um sentimento puxando as bordas da mente de Peach, recusando-se a desaparecer. Só ficava mais forte a cada segundo que passava. Quando seu telefone foi devolvido, Peach o pegou distraidamente, sua exaustão se misturando com aquela sensação incômoda de reconhecimento. Antes que pudesse se conter, as palavras escaparam.
— Você se parece muito com alguém. Já nos encontramos antes?
O Sr. Máfia congelou, um lampejo de algo, decepção, talvez, passando naqueles olhos cinzentos antes de desaparecer atrás de um sorriso irônico.
— Essa é a cantada mais idiota que já ouvi. O quê, você tem assistido muitas novelas?
Peach piscou algumas vezes, depois caiu na gargalhada, do tipo que o deixou dobrado, enxugando as lágrimas dos olhos. Sua diversão genuína limpou instantaneamente o sorriso do rosto do outro homem, substituindo-o por uma carranca confusa.
— Desculpe, desculpe. — disse Peach rapidamente, tentando se recompor antes que as coisas ficassem tensas. A última coisa que ele precisava era que o Sr. Máfia se ofendesse e começasse a agitar sua arma. — Eu não estava rindo de você, é só que, cara, isso foi tão exagerado. Juro que não estava tentando flertar com você nem nada. Prometo.
Ele finalmente conseguiu controlar o riso, embora o sorriso teimosamente permanecesse em seu rosto.
— Perguntei porque você realmente parece familiar. Sinto que já te vi em algum lugar antes, talvez em uma revista? Seus olhos, essa cor cinza-fumaça... são realmente marcantes. Acho que eles ficaram na minha cabeça.
A carranca do Sr. Máfia relaxou, a nitidez em seu olhar suavizando ligeiramente, quase como se estivesse perdido em pensamentos. Peach ficou lá, esperando. Queria implorar permissão para ir para casa e dormir, mas estava com muito medo de acabar dormindo permanentemente. Não era uma opção. Ele ainda tinha uma tonelada de trabalho esperando por ele.
— Vou pensar sobre isso. — disse o homem da máfia finalmente, depois se virou e foi embora, seus homens o seguindo.
Peach não soltou a respiração que estava segurando até que estivessem completamente fora de vista. O alívio o atingiu com tanta força que pareceu que uma montanha havia sido tirada de seu peito. O tempo todo em que estiveram conversando, ele estivera aterrorizado pela ideia de acabar morto. Mas entre sua personalidade usual, o zumbido persistente do álcool em seu sistema e a exaustão extrema, ele de alguma forma conseguiu agir com mais coragem do que realmente tinha.
Pelo menos não tinha feito nada muito imprudente. Foi o que disse a si mesmo ao entrar no carro e voltar para o condomínio. No momento, tudo o que conseguia pensar era em sua cama macia e no doce e gelado abraço do ar condicionado.
…
Theerakit Kian Arseny era um empresário na casa dos trinta anos que estava atualmente fazendo sucesso aos olhos do público, não apenas pela Arseny, sua marca de perfumes e joias altamente popular, mas também graças à sua aparência marcante e à lista sempre em mudança de namoradas celebridades.
Mas poucas pessoas sabiam a verdade sobre a família Arseny. O negócio de perfumes e joias não foi seu primeiro empreendimento. O nome Arseny era importante no mercado negro há anos como um dos maiores fornecedores de armas da Rússia. Eles não apenas negociavam armas, investiam pesadamente em pesquisa e desenvolvimento, impulsionando novas tecnologias.
O que começou como um negócio de tráfico de armas expandiu-se para o mundo da tecnologia e, agora, com o filho mais velho dos Arseny no comando, eles tinham uma marca legítima de bens de luxo. Na superfície, era apenas uma fachada, mas os lucros massivos excederam as expectativas, tornando-a uma das joias da coroa do império Arseny.
Com tudo a seu favor, poder, riqueza, influência, não era surpresa que o homem frequentemente chamado de “o chefe da máfia” raramente encontrasse algo que quisesse, mas não pudesse ter.
Ele tamborilou os dedos lenta e ritmicamente contra a mesa, deixando o documento na tela sem assinatura. Pela primeira vez, não conseguia se concentrar no trabalho. Sua mente estava emaranhada com pensamentos que não conseguia afastar, não importava o quanto tentasse.
Aquele modelo impetuoso havia chamado sua atenção, aqueles olhos grandes e expressivos, bochechas coradas e aquela boca inteligente. Havia um desafio em seu comportamento, quase provocativo, envolto em um corpo pequeno que parecia tão fácil de dominar.
Ele tinha que admitir, estava intrigado. Não conseguia deixar de se perguntar qual seria a sensação de ter aquela coisinha teimosa presa sob ele, contorcendo-se e cedendo ao seu controle. Quando ele queria algo, ele conseguia. E quanto mais alguém resistia, mais satisfatório era reivindicá-lo.
Mas... algo estava estranho. A imagem daquele modelo persistia em sua mente, recusando-se a desaparecer. E, no entanto, curiosamente, outro pensamento começara a se infiltrar, uma voz quente e gradual, calma e constante como um riacho suave.
Apenas algumas palavras, acompanhadas por uma risada brilhante e genuína, conseguiram extinguir seu temperamento fervente em um instante.
Aquele que havia rido dele, que o havia repreendido tão casualmente e se mantivera firme sem irritá-lo. Na verdade, a atitude inabalável, mas desarmante, do homem o fizera ceder.
Ninguém mais havia falado com ele daquela maneira e vivido para contar a história.
Porém, aqui estava este fotógrafo, muito vivo e inteiro. À primeira vista, ele nem era tão notável. Não era deslumbrantemente bonito, nem alguém de quem você não conseguia tirar os olhos. E, ainda assim… estar perto dele tinha sido estranhamente calmante.
— Senhor, aqui estão os relatórios de antecedentes que solicitou.
Seu assistente deu um passo à frente, colocando dois arquivos na mesa. Cada um tinha um nome escrito claramente na capa. Thee hesitou. Honestamente, ele vinha se questionando desde a noite passada, quando ordenara as verificações de antecedentes. Sua intenção fora investigar a história do modelo. Mas, de alguma forma, ele também disse para investigarem o fotógrafo.
Mesmo agora, uma parte dele se perguntava que diabos ele queria com o arquivo do fotógrafo. E, no entanto, quando sua mão se moveu, ela pulou o arquivo do modelo, aquele que ele tinha tanta certeza de que queria, e pegou o do fotógrafo.
O outro arquivo permaneceu intocado na mesa. Thee franziu os lábios levemente enquanto folheava as páginas. O registro do fotógrafo era frustrantemente limpo. Sem escândalos, sem segredos ocultos. Apenas uma vida simples. Como o mais velho de sua família, os nomes de seus pais nem estavam listados no relatório.
O olhar do chefe da máfia demorou-se brevemente na seção que listava as comidas favoritas. Então, como se tomasse uma decisão, pegou o telefone, procurou o número que salvara na noite passada e ligou sem hesitar. A linha mal tocou antes que a outra pessoa atendesse.
A voz sonolenta que atendeu o fez olhar para o relógio. Quase 10 da manhã, não era?
— Estarei lá embaixo em uma hora. Vou te buscar. — disse ele, curto e direto, puramente por hábito.
A pessoa do outro lado, contudo, claramente não estava acostumada com comandos tão abruptos.
— “Me buscar? Indo para onde? Espera, quem é?”
— Para o café da manhã. — Esclareceu Thee, embora explicasse apenas o quanto sentia vontade. Irritou-o um pouco que a outra pessoa não se lembrasse imediatamente de quem ele era, mas deixou passar. Dado o tom grogue da voz do cara, seu cérebro provavelmente não estava funcionando totalmente ainda.
Curiosamente, em vez de irritação, ele achou a confusão e a sonolência na voz dele... divertidas. A outra pessoa ainda parecia confusa, mas Thee não lhe deu chance de fazer mais perguntas. Desligou e voltou-se para os documentos em sua mesa.
A papelada, que parecia irritante antes, agora parecia um pouco menos incômoda. Na verdade, ele podia realmente se concentrar nela. Talvez a sugestão do fotógrafo de ir com calma e “começar flertando” não fosse uma ideia tão ruim, afinal.
Ele começaria com um pouco de reconhecimento, reunir algumas informações sobre o modelo de rosto bonito. Os dois pareciam próximos o suficiente para que ele provavelmente descobrisse algo útil.
Thee estava visivelmente de bom humor, embora ele mesmo não percebesse. Enquanto isso, seu secretário e os guarda-costas próximos trocavam olhares silenciosos e inquietos. Perguntas enchiam suas mentes, mas ninguém ousava expressar uma única. Ninguém era estúpido o suficiente para arriscar provocar seu chefe e desencadear uma de suas explosões infames. Se isso acontecesse, não haveria ninguém sobrando para acalmar a tempestade.
FIM DO CAPÍTULO