CAPÍTULO 24
CAPÍTULO 24
Peach não era naturalmente muito falante. Quando comiam juntos, geralmente era um assunto silencioso, apenas o som de utensílios batendo suavemente contra os pratos, nenhum dos dois sentindo a necessidade de forçar uma conversa. Era aquele tipo de silêncio confortável que os envolvia como um cobertor quente. Antes que percebesse, ele se tornou viciado naquela facilidade tranquila.
Mas esta noite foi diferente. Apesar de ser uma celebração, ele planejou…
Apesar de escolher um restaurante japonês de alto padrão, ele sabia que Peach adoraria…
Apesar de reservar um curso de omakase extravagante, Peach mencionou uma vez querer experimentar…
Mesmo sendo um lugar agradável, a atmosfera entre eles parecia tensa, até sufocante, como se o ar estivesse denso demais para respirar.
Thee olhou para Peach sentado imóvel e silencioso ao lado dele. Seu rosto estava ilegível, seu calor habitual reduzido a um sorriso fraco e educado sempre que aceitava um prato do chef atrás do balcão de madeira. Mesmo esse sorriso nunca alcançava seus olhos.
O peito de Thee apertou de frustração. Ele não podia ignorar o desconforto crescente corroendo seu estômago, e paciência nunca fora seu forte. Virando-se totalmente para Peach, cruzou os braços, franzindo as sobrancelhas. Seus olhos semicerrados praticamente queimavam com irritação reprimida, ansiando por liberação. Mas atacar Peach não resolveria nada, não importa o quão tentador parecesse.
— Você está bravo comigo? — Ele perguntou sem rodeios, sua voz carregando uma borda áspera que ele não conseguia esconder. Sutileza nunca foi o forte de Thee. Ele estava acostumado a falar com precisão e determinação, fosse negociando acordos comerciais ou emitindo ordens calculadas. Mas quando se tratava de emoções que ele não planejou, suas palavras sempre saíam sem polimento e dolorosamente diretas.
Peach piscou, momentaneamente surpreso pela intensidade no tom de Thee. Após uma pausa, tomou um pequeno gole de chá antes de finalmente se virar para ele. Seu olhar estava tão calmo e sereno quanto sempre.
— Eu não diria que estou bravo, mas definitivamente não estou feliz. — disse Peach calmamente, sua voz firme como sempre. Ele nunca foi de usar sarcasmo ou fazer rodeios. — Você me fez quebrar minha palavra sobre o trabalho e, claro, isso me chateia.
Thee pressionou os lábios, entendendo as palavras, mas incapaz de afastar a irritação borbulhando sob sua pele. O nome que Peach mencionou casualmente antes e o tom suave que usou para dizê-lo só faziam sua frustração crescer.
— Ha! Isso é sobre trabalho ou sobre a pessoa com quem você deveria almoçar?
O chefe da máfia quase mordeu a língua no momento em que as palavras saíram de sua boca. O longo suspiro que Peach soltou em resposta só fez os punhos de Thee cerrarem mais forte, seus nós dos dedos ficando brancos pela pressão.
— Sr. Thee, você pode ser razoável por um momento? Não sei o que está passando pela sua cabeça, mas o que você fez não foi certo. — A voz de Peach suavizou, como se tentasse acalmar uma criança teimosa fazendo birra. — Não importa com quem eu tinha um compromisso ou sobre o que era. Se fiz uma promessa, é minha responsabilidade cumpri-la, a menos que haja uma emergência inevitável. Isso é apenas cortesia básica.
Theerakit pressionou os lábios e desviou o olhar. Ele sabia que estava sendo repreendido. Se qualquer outra pessoa tivesse falado com ele assim, ele nem teria se incomodado em ouvir. Na melhor das hipóteses, teriam recebido uma risada fria antes que ele os fizesse se arrepender de terem cruzado seu caminho. Mas com Peachayarat? Ele se sentia completamente derrotado. Frustrado, encurralado e incapaz de fazer nada a respeito.
— Então, você está dizendo que outra pessoa é mais importante do que eu?
— Não estou dizendo que alguém é mais importante do que ninguém. Isso é sobre manter promessas e respeitar os outros. — respondeu Peach com uma seriedade inabalável, recusando-se a recuar um centímetro sequer.
O olhar frio nos olhos de Peach e sua expressão estoica e ilegível fizeram o peito de Thee apertar desconfortavelmente. Era cortante. A sensação de afundamento abafou o calor de sua raiva num instante, deixando-o inexplicavelmente vazio.
— Se eu tivesse te contado antes, não teria sido uma surpresa. — disse Thee suavemente, sua voz perdendo a nitidez anterior. Pela primeira vez, ele estava começando a perceber que talvez não ganhasse essa discussão. Ele nunca ganharia. Ele já esteve em impasses como este antes, e certamente não estava acostumado a não ter uma resposta rápida e inteligente pronta.
— Então você tem que aceitar o risco que vem com isso.
O chefe da máfia roubou um olhar para Peach, que parecia ter se acalmado um pouco, embora ainda não tivesse retornado ao seu eu habitual. Ele teria preferido se Peach tivesse reclamado ou repreendido como costumava fazer, em vez de ficar em silêncio assim. Esse silêncio parecia uma parede sendo construída lentamente entre eles, empurrando Peach ainda mais para longe.
Antes mesmo de perceber o que estava fazendo, Thee estendeu a mão e segurou gentilmente o pulso de Peach. Seu toque foi leve, quase hesitante, como se testasse as águas. Quando Peach não se afastou, seus dedos deslizaram até a palma da mão, segurando-a com cuidado.
— Você ainda está bravo comigo por outra coisa. — disse Thee, com as sobrancelhas franzidas. A tensão no comportamento de Peach não desapareceu totalmente, fazendo Thee se sentir extraordinariamente inseguro de si mesmo. Era estranho, deixar as emoções de outra pessoa afetá-lo assim. Além de sua família, Thee nunca se importou com os sentimentos de ninguém, fosse para melhor ou para pior. Ele nunca deixou o humor de ninguém influenciá-lo, e aqueles que o irritavam sempre encontravam um fim sem cerimônia.
Mas ele não podia agir assim com Peach. A memória das marcas vermelhas que deixou no pulso de Peach o assombrava, o corroía. Ele odiava a ideia de machucar o homem de qualquer maneira, odiava ainda mais a ideia de outra pessoa fazer isso. E ainda assim, a irritação não dita de Peach o fazia sentir como se estivesse andando sobre pregos.
Peach finalmente puxou a mão e virou-se para aceitar outro pedaço de sushi do chef. Ele saboreou lentamente, deixando Thee cozinhar no silêncio. Somente depois de limpar as mãos com um guardanapo úmido, Peach finalmente olhou para ele, sua expressão calma, mas séria.
— Por que você acha que estou chateado, Sr. Thee?
— Além de eu te forçar a vir aqui, o que mais poderia ser? — Ele murmurou, um toque inesperado de vulnerabilidade escorregando em seu tom.
Thee reservou este lugar pensando em Peach, mas aqui estava ele, sendo repreendido em vez de agradecido. Mesmo entendendo o raciocínio, não pôde evitar a dor da decepção. Desde quando Theerakit se sentia magoado por alguém?
Thee apoiou o cotovelo na mesa e descansou o queixo na mão, virando o rosto com uma expressão amuada que podia ser vista de fora do restaurante. Mas Peach? Ele não parecia nem um pouco incomodado, parecendo mais exasperado do que qualquer outra coisa. Por que ele sempre parece tão farto de mim?
— E o que você acha que fez para me deixar chateado? — Peach perguntou calmamente, não respondendo, mas devolvendo a pergunta a ele. Não havia sarcasmo, apenas seriedade. — Você já me perguntou duas vezes, o que significa que deve ter alguma ideia do que fez de errado.
O chefe da máfia pressionou os lábios, seus olhos desviando para evitar o olhar de Peach. Enquanto isso, Peach esperava pacientemente, sem fazer esforço para apressá-lo, como se lhe desse tempo para descobrir sozinho. O silêncio se estendeu desconfortavelmente até que Thee finalmente exalou.
— Você não gostou quando eu disse que cuidaria da conta, não foi? — Ele franziu a testa, vasculhando seus pensamentos em busca de qualquer coisa que pudesse ter chateado Peach. — Por quê? Todo mundo não gosta de dinheiro? Até quando trabalho, penso em lucros e ganhos.
— Claro, todo mundo quer dinheiro. Eu quero dinheiro também. — respondeu Peach com um aceno de cabeça. — Há momentos em que desejo poder apenas ficar na cama o dia todo e ter dinheiro magicamente aparecendo na minha conta.
Peach assentiu, mas assim que Thee estava prestes a responder, Peach levantou a mão para detê-lo, como se estivesse treinando um cachorro para esperar. As sobrancelhas de Thee franziram ligeiramente com o pensamento, mas quando seus olhos encontraram o olhar calmo e claro de Peach, sua irritação desapareceu. Tudo bem, pensou relutantemente. Vou entrar no jogo.
— Mas além do dinheiro, eu também amo o que faço. Você sabe o quanto tive que lutar por isso? Aceitei qualquer trabalho que apareceu no meu caminho, qualquer coisa que pagasse. Por muito tempo, fomos apenas Plub e eu. Só tínhamos um ao outro.
Peach continuou, seu tom firme e desprovido de autopiedade, nem buscando simpatia nem insinuando que suas lutas tinham sido particularmente trágicas. Peach não era o tipo de pessoa que se chafurdava no infortúnio.
— Eu sabia que amava fotografia. Mas naquela época, fazer o que eu amava parecia um fardo insuportável. Câmeras são caras, e transformar algo pelo qual eu era apaixonado em uma carreira que pudesse sustentar tanto minha irmã quanto eu? Parecia impossível.
Peach continuou. Seu olhar caiu enquanto um leve sorriso puxava os cantos de seus lábios, um calor nostálgico rastejando em sua voz. Ele fez uma pausa, seus dedos traçando a borda da mesa como se seguissem memórias do passado.
— Eu esperei. Eu entrava escondido em galerias só para ver exposições. Colecionava câmeras descartadas, consertava-as e as usava-as. Mesmo com aquelas câmeras de segunda mão surradas, eu estava feliz apenas por tirar fotos.
O tom de Peach era calmo, constante, sem traço de amargura ou melodrama. No entanto, você podia sentir o peso de cada palavra, uma mistura de dor, ambição e determinação silenciosa. Não era digno de pena; pelo contrário, fazia Peach brilhar ainda mais, sua resiliência e paixão transformando aquelas dificuldades em algo extraordinário.
— Levou muito tempo para chegar aqui. Muitas pessoas me deram oportunidades, me ajudaram a chegar onde estou agora, para me tornar um fotógrafo completo. — admitiu Peach, olhando para ele com um pequeno sorriso que carregava esperança e um toque de vulnerabilidade. Seus olhos suavizaram, mas sua voz permaneceu firme. — É por isso que não pareceu certo quando você me disse para parar de trabalhar. Talvez meu trabalho não pareça tão importante quanto o seu, mas eu amo o que faço.
A carranca de Thee se aprofundou enquanto ouvia, absorvendo o peso das palavras de Peach. Ele podia sentir a culpa afundando, algo desconhecido e inquietante. E quando viu o brilho nervoso nos olhos de Peach, uma mistura de apreensão e medo, seu peito apertou. Ele vira aquele olhar antes. Uma vez. Naquela época, jurou a si mesmo que nunca mais queria vê-lo. No entanto, aqui estava, olhando de volta para ele. E a pior parte? Foi ele quem causou isso... de novo.
Ele nunca sentiu tanta raiva de si mesmo antes.
— Eu estava errado. Não pensei em como você se sentiria. — disse ele baixinho, sua voz tensa de arrependimento. A expressão de Peach suavizou um pouco, mas era como se ele ainda estivesse esperando por algo mais. — Como posso compensar você? Eu não queria fazer você se sentir assim.
— Você já sabe o que eu quero. — disse Peach com um leve sorriso, seu olhar mudando para o novo prato de sushi que o chef colocou diante dele. — Mas cuidado, Thee. Se você esperar demais para dizer as palavras certas, elas podem perder todo o significado.
Thee fez uma careta, sua mente correndo. Ele sempre foi o tipo de pessoa que jogava dinheiro em um problema, mas sabia que essa abordagem não funcionaria com Peach. A memória daquele sorriso largo e radiante, o primeiro que ele viu em Peach, passou por sua mente. Ele queria ver aquele sorriso novamente. Não esse olhar sombrio e distante.
— Sinto muito.
Sua voz era firme, o peso de suas palavras refletido no cinza esfumaçado de seus olhos enquanto sustentava o olhar de Peach. Ele queria que ele sentisse a sinceridade, que soubesse que ele realmente se arrependia de suas ações.
Peach congelou por um momento antes de um pequeno sorriso começar a se formar nos cantos de seus lábios. Não era tão brilhante quanto antes, mas era quente, com um toque de doçura e satisfação silenciosa.
Thee exalou profundamente. O ar entre eles não havia clareado completamente, mas pelo menos a tensão sufocante havia se dissipado, substituída por um calor sutil e delicado. Inconscientemente, um sorriso suave apareceu no rosto de Thee. Não era perfeito, mas também não era ruim.
Não muito longe, seu secretário soltou discretamente um suspiro de alívio. Pela primeira vez no que pareceram anos, ele podia finalmente respirar.
Ele observou seu chefe por um momento, sua expressão presa em algum lugar entre exasperação e descrença. Ele estava imaginando, ou Thee de repente parecia um cachorro grande abanando o rabo de prazer? Bem, pelo menos alguém tinha conseguido mantê-lo sob controle. Isso era um progresso.
Mok deixou seus pensamentos vagarem por um momento antes que a realidade o puxasse de volta ao sentir uma vibração no bolso do peito. Ele puxou o telefone e olhou para a tela, franzindo a testa ligeiramente para o identificador de chamadas. Após um rápido olhar para Thee para confirmar que a situação estava sob controle, gesticulou para um dos guarda-costas assumir e saiu silenciosamente da área de jantar.
Caminhando por um corredor lateral, atendeu a chamada em seu tom composto habitual.
— Alô.
— “Ah, não soe tão distante. Você está me fazendo sentir solitário.” — disse a voz brincalhona do outro lado da linha, provocando apenas o suficiente para fazer Mok revirar os olhos, mesmo que a pessoa do outro lado não pudesse vê-lo.
— O que posso fazer por você, Sr. Krich?
— “Você realmente não vai me chamar de Rome como costumava?” — A voz do outro lado suavizou, soando dolorosamente triste. Mas Mok sabia que não devia cair nessa atuação. — “Não se preocupe, você pode guardar isso para quando estivermos na cama, certo?”
Antes que Krich pudesse terminar sua frase, a tristeza em seu tom mudou para algo astuto e provocador, misturado com diversão maliciosa.
Mok beliscou a ponte do nariz, uma dor de cabeça aguda se aproximando. Ele já podia sentir a necessidade de analgésicos. Mantendo a voz calma e neutra, encerrou qualquer chance de mais travessuras.
— Então, você realmente tem algo importante para discutir?
— “Tudo bem, tudo bem, muito sério, Sr. Secretário! E aqui estou eu, sentindo tanto a sua falta.”
— Se não houver nada urgente, estou desligando agora.
— “Espere! Espere! Eu só quero saber, meu irmão realmente tem alguém na vida dele agora?”
O tom de Krich mudou novamente, desta vez com curiosidade genuína. A nota séria em sua voz fez Mok parar, seu dedo pairando sobre o botão de desligar. Ele sabia o quanto Krich se importava com o irmão. Apesar das constantes traições entre outras famílias da máfia, os irmãos Arseny eram ferozmente leais um ao outro, dispostos a morrer um pelo outro se necessário. Tendo crescido ao lado dos dois irmãos, Mok sabia melhor do que ninguém quão inquebrável era o vínculo deles.
— Não, ele não tem. — respondeu Mok finalmente após um momento, franzindo a testa ligeiramente enquanto considerava suas palavras. — Para ser mais preciso, é como se ele tivesse alguém em mente, mas nada progrediu ainda.
A risada que irrompeu de Krich do outro lado foi alta e cheia de malícia. Mok relaxou ligeiramente, um leve sorriso puxando os cantos de seus lábios enquanto seus olhos brilhavam de diversão.
— “Nada oficial, hein? Mas quem sabe, talvez as coisas tenham progredido nos bastidores.” — A voz de Rome ainda carregava um traço de riso enquanto ele tentava soar sério novamente. — “Não, espere. Kian odeia contato físico. E vamos ser reais, ele não recebe ordens de ninguém.”
Mok levantou uma sobrancelha ligeiramente, recordando o olhar melancólico nos olhos de Thee quando Peach segurou sua mão, e quão obedientemente ele agiu, quase como um cachorro com as orelhas em pé e o rabo abanando. Ele não pôde evitar o pequeno sorriso presunçoso que se formou no canto de seus lábios.
— Acho que você pode precisar atualizar suas informações, Sr. Krich.
— “Sério? Bem, então, passar por aí na próxima semana deve ser interessante.” — Rome riu, sua surpresa evidente. Então, na deixa, sua voz tornou-se brincalhona e melosa. — “Mas você sabe que eu só iria por você. Todo o meu coração e alma pertencem a você, Mok.”
A expressão de Mok mudou para uma de irritação.
— Se você não tem nenhum negócio real, estou desligando. — respondeu ele secamente.
Rome riu novamente, fingindo ofensa.
— “Um coração tão frio.” — reclamou ele antes de sua voz se tornar genuína. — “Sinto sua falta.”
Mok não respondeu. Em vez disso, encerrou a chamada silenciosamente, pressionando o telefone com força contra o peito. Seu coração batia tão alto que assustou até a si mesmo, suas bochechas queimavam tanto que ele mordeu a parte interna da bochecha para não sorrir.
Lidar com os irmãos Arseny... ambos… era igualmente exaustivo.
FIM DO CAPÍTULO