CAPÍTULO 23
CAPÍTULO 23
A reunião da tarde foi uma virada completa de 180 graus em relação à da manhã, como o dia e a noite, realmente. As coisas estavam tão tensas que até Mok, o secretário sempre paciente, só pôde suspirar internamente.
Se ele tivesse que rastrear a raiz do problema... Sem dúvida começou com o que aconteceu no carro na hora do almoço.
Quando Peachayarat, recém-vestido e pronto, desceu do condomínio, já estava se acostumando a vê-lo esperando na entrada principal. Ele nem questionava mais. Ele o cumprimentava com um alegre “Estou morrendo de fome!”, um sinal claro de que queria companhia para o almoço.
Peach ainda não conseguia entender o porquê de Thee continuar acompanhando-o, mas ei, comida grátis era comida grátis. Ele não se incomodou em discutir. Desta vez, Peach sugeriu mudar as coisas com um pouco de comida tailandesa. Por mais que gostasse de culinária japonesa, comer todos os dias era demais. Ele até considerou sugerir uma barraca de comida na rua, mas a julgar pela aparência polida de Thee, optou por um restaurante adequado em vez disso. Tudo bem. Não o afetava em nada, ele não era quem pagava a conta.
Enquanto Peach estava ocupado quebrando a gema do ovo mole em seu prato, Thee limpou a garganta, parecendo desconfortável e um pouco tímido. Suas orelhas ficaram ligeiramente vermelhas, embora ele estivesse tentando o seu melhor para manter a compostura.
— Aquela noite... no banquete da empresa... você não compareceu. — Começou ele hesitante. — Então... pensei que talvez pudéssemos comemorar esta noite. Você se saiu muito bem no projeto da coleção de outono. — Seus lábios se curvaram em um leve sorriso. — Não se preocupe em me agradecer. É justo recompensar um bom trabalho.
Peach congelou, com a boca ligeiramente aberta, completamente pego de surpresa. Sua mente corria enquanto piscava em descrença.
— Uh. Desculpe, mas já tenho planos para esta noite. — Assim que as palavras saíram de sua boca, a expressão de Thee tornou-se fria como pedra. Suas feições antes suaves endureceram, e a atmosfera da sala ficou escura e pesada. Seus olhos se estreitaram, como um predador travando em sua presa.
O Arseny mafioso havia retornado.
— Não vou deixar você ir. Você vem comigo.
— Sr. Thee, eu já prometi. Não posso simplesmente voltar atrás. — suspirou Peach internamente. O Thee possessivo e imprevisível havia ressurgido.
— Com quem é a reunião? Verifiquei sua agenda, e você não tem nada.
A voz de Thee era calma, mas a irritação transparecia. Sentindo-se encurralado, Peach mencionou relutantemente a empresa do cliente.
— Eles querem discutir um projeto de última hora, então me pediram para encontrá-los esta noite. — explicou ele. — Mas não se preocupe, já disse a eles que tenho um projeto de longo prazo para cuidar. Não me comprometi com nada ainda, e não deixarei isso interferir no seu trabalho.
— Desde quando você encontra clientes em restaurantes? Esse não é o seu jeito habitual. — Os olhos de Thee se estreitaram com desconfiança.
— Uma amiga minha organizou. — respondeu ele calmamente. — Pensei em combinar trabalho com colocar o papo em dia durante o jantar.
Peach fez uma pausa, percebendo onde isso ia dar.
— Eu não sou seu amigo? — perguntou Thee secamente.
Peach permaneceu em silêncio, pego de surpresa pela pergunta inesperada. Ele queria perguntar: “Desde quando somos próximos o suficiente para sermos amigos?”, mas pensou melhor. Apesar de si mesmo, os cantos de sua boca se levantaram ligeiramente. Ele não podia negar o calor que sentia, como um conforto nebuloso se instalando em seu peito.
Desde aquele dia em que baixou a guarda e chorou na frente dele, Peach sentiu... que algo havia mudado. De alguma forma, este homem complicado e intenso havia se tornado um tipo estranho de espaço seguro. Mesmo que estar nesse “espaço seguro” viesse com um pouco de chicote emocional.
— A outra reunião foi agendada primeiro. — argumentou Peach gentilmente, sabendo que era melhor não combater fogo com fogo. — Eu já dei minha palavra. Você não me reservou com antecedência, Thee. Talvez da próxima vez... você poderia perguntar antes de decidir algo que me envolva?
— Por que eles são mais importantes para você do que eu?
Peach piscou com a observação sarcástica, sentindo uma súbita ardência atrás dos olhos. Que resposta o satisfaria quando perguntasse isso?
— Não é sobre quem é mais importante. Tenho uma reunião de trabalho, é um compromisso real. — explicou Peach, pressionando os lábios.
O olhar intenso de Thee permaneceu travado nele, afiado e inabalável.
— Talvez você não devesse aceitar o trabalho. Você já está sobrecarregado.
— Se eu parar de trabalhar, como vou comer?
Ele conteve a vontade de apontar que, ao contrário de Thee, ele não era rico.
— Além disso, nos últimos três meses, os únicos projetos que fiz foram os seus.
— A expressão de Thee suavizou, embora ele convenientemente tenha escolhido ouvir apenas as palavras “Tudo o que fiz foi seu”. Satisfeito por um breve momento, ele continuou, ainda não disposto a recuar.
— Vi sua agenda. Você tem muitos trabalhos alinhados. Pular este não vai te matar.
— É apenas uma reunião. Nem concordei em aceitar o projeto ainda.
— Então não vá. — respondeu Thee imediatamente, seu tom não deixando espaço para negociação. — Estou falando sério. Você não precisa mais trabalhar.
Peach soltou um suspiro profundo, esfregando as têmporas para aliviar a dor de cabeça crescente.
— E de que eu viveria se parasse de trabalhar?
— Eu cuidarei de você.
A resposta rápida de Thee foi carregada de satisfação, como se ele tivesse encontrado a solução perfeita. Mas a carranca de Peach se aprofundou, a irritação rastejando em sua voz.
— Você espera que eu viva às suas custas? Que tipo de amigo sustenta alguém para o resto da vida?
Ele exalou lentamente, lutando para manter a compostura. Foi preciso cada grama de autocontrole para não atacar a teimosia exagerada de Thee.
O olhar intenso de Thee permaneceu fixo, sua expressão endurecendo com determinação.
— Posso cuidar de você, para o resto da vida, se necessário.
Peach congelou, sentindo algo estranho na declaração de Thee. Certamente, ele só queria dizer pagar uma refeição ocasional. Não poderia haver mais do que isso... certo?
Ele forçou um sorriso educado e distante.
— Não, obrigado. Amo meu trabalho e já tenho planos para hoje à noite. Não vou te incomodar.
A carranca de Thee se aprofundou com o tom firme de Peach, sentindo a finalidade em suas palavras. Relutantemente, ajustou sua postura, embora recuar fosse contra sua natureza.
— Eu só queria celebrar com você. — disse ele suavemente, embora a irritação ainda persistisse. Ele cruzou os braços e desviou o olhar, como se ignorasse sua própria vulnerabilidade. — Não queria que ninguém dissesse que alguém trabalha mais do que o resto e nunca recebe nada em troca.
Peach suspirou baixinho, sua irritação derretendo em algo mais suave. Lidar com Thee às vezes parecia navegar em um mar tempestuoso, imprevisível e implacável.
— Você já aumentou minha taxa de contrato. — respondeu ele uniformemente, voltando ao seu tom calmo habitual.
— Isso é diferente. — Os olhos de Thee voltaram para ele, brilhando com algo ilegível. Sua voz baixou para um rosnado. — É quase impossível reservar este restaurante hoje à noite. Se você perder, pode nunca mais ter outra chance.
— Tenho uma reunião de trabalho.
Ele praguejou baixinho, claramente frustrado. Um silêncio desconfortável se instalou entre eles, estendendo-se pelo resto da refeição e persistindo mesmo enquanto se dirigiam para a sala de reuniões.
A carranca de Thee permaneceu inalterada, seus olhos semicerrados irradiando irritação, como se ele ainda estivesse lutando mentalmente com a tensão não resolvida. Mesmo agora, enquanto apresentava a coleção de inverno, Thee estava sentado à cabeceira da mesa, sua expressão escura e tempestuosa, como se não pudesse estar mais decepcionado com os designs, apesar de não proferir uma única palavra de crítica durante a apresentação.
A confusão não era apenas entre os estranhos; até o próprio Thee não conseguia entender por que estava tão irritado. Seu sangue ferveu quando percebeu que o fotógrafo havia escolhido outra pessoa em vez dele. No fundo, ele sabia que não era culpa de Peach, era dele por não organizar adequadamente. Mas Thee estava acostumado com Peach escolhendo-o primeiro. Cada. Vez.
Esta foi a primeira vez que Thee foi rejeitado categoricamente. Atingiu-o mais forte do que o esperado, ele não havia percebido que, nos últimos três meses, Peach trabalhou quase exclusivamente em seus projetos, deixando pouco espaço para qualquer outra coisa. Peach desapareceria assim que este projeto terminasse?
O pensamento atingiu Thee como um soco no estômago. Sua frustração se transformou em ansiedade inquieta, especialmente depois de ver o olhar inabalável nos olhos de Peach quando ele recusou firmemente. A rejeição o perturbou mais do que ele queria admitir.
Mas não era só isso. Algo mais o corroía, um mau pressentimento que ele não conseguia afastar. Ele verificou os antecedentes de Peach antes. Sabia que Peach não tinha muitos amigos próximos, apenas um pequeno círculo de pessoas em quem realmente confiava.
E o mais importante, a empresa que Peach mencionou de passagem? Sua verificação de antecedentes indicava claramente que era o local de trabalho da ex-namorada mais recente de Peach, aquela com quem ele havia terminado não muito tempo atrás.
Thee cerrou a mandíbula. A apresentação continuou, mas nada foi registrado. Sua mente zumbia com pensamentos inquietos, apesar de suas tentativas de raciocinar que poderia ser simplesmente uma coincidência. Talvez outra pessoa da empresa tivesse contatado Peach. Talvez não tivesse nada a ver com ela. Mas não importava o quanto tentasse racionalizar, sua irritação queimava ainda mais quente. Ele odiava a ideia de Peach encontrar aquela ex novamente.
— Chefe, está tudo bem?
A voz de Mok tirou Thee de seus pensamentos. Ele se mexeu ligeiramente e focou na imagem exibida na tela. Reconheceu imediatamente o trabalho do fotógrafo. O estilo de Peach era inconfundível, assustadoramente belo, mesmo com equipamento mínimo. De alguma forma, Peach havia capturado uma cena de inverno de fim de ano cheia de solidão, com o brilho suave de luzes de Natal espalhadas brilhando através do quadro.
A expressão de Thee suavizou antes que ele pudesse se conter. Vendo a assinatura elegante de Peach no canto da foto, a tensão sufocante que pesava na sala subitamente se dissipou. Tudo sobre Peach ainda conseguia mexer com ele.
— Sem problemas. Vamos prosseguir com isso. — disse Thee finalmente, assentindo para seu assistente e sinalizando para os outros. — Reunião encerrada.
Mok levantou uma sobrancelha para o comportamento incomumente distante de seu chefe, mas não disse nada. Ele observou mentalmente que precisaria redigir um resumo completo da reunião mais tarde, claramente, Thee não ouviu uma palavra do que foi dito.
Enquanto a sala começava a esvaziar, Thee folheou casualmente as notas da reunião enquanto esperava que todos saíssem. Finalmente, levantou-se, pronto para ir também, mas assim que cruzou a soleira, alguém puxou gentilmente seu paletó. O puxão não foi forte, mas foi o suficiente para detê-lo.
Ele se virou, pronto para atacar quem ousasse agarrá-lo, mas congelou quando viu Peach parado ali, parecendo hesitante e... vulnerável. Peach mordeu o lábio, olhos arregalados e inseguros, quase inconscientemente suplicantes.
Thee inalou bruscamente, sentindo como se o ar tivesse sido expulso de seus pulmões. Seu coração batia tão forte que o assustou.
— O que foi? — perguntou ele, limpando a garganta e mantendo a voz firme, apesar do lampejo de emoção em seus olhos. Ele olhou para a mão pequena ainda segurando seu paletó, temendo que Peach pudesse notar a intensidade queimando em seu olhar.
Felizmente, Mok foi muito discreto. No momento em que viu Peach agarrar o paletó de Thee, saiu silenciosamente da sala e fechou a porta atrás de si, garantindo que ninguém mais tropeçasse na visão rara de seu chefe normalmente frio e intocável parado ali com uma luz fraca, mas inconfundível, nos olhos.
Peach parecia confuso, como se não conseguisse entender o motivo de ter corrido atrás de Thee e agarrar seu paletó em primeiro lugar. Seus dentes pressionaram o lábio inferior, tenso de inquietação. Sem pensar, Thee passou gentilmente a ponta do dedo sobre aquele lábio tenso, lento e deliberado.
— Não morda. Você vai se machucar. — murmurou ele, sua voz mal passando de um sussurro. O calor e a suavidade que permaneciam na ponta dos dedos eram bons demais, confortáveis demais, para soltar tão facilmente. Seu coração, que mal havia começado a se acalmar, começou a disparar novamente.
Peach piscou, soltando o lábio conforme lhe foi dito, ainda parecendo inseguro de si mesmo. Depois de um longo suspiro, puxou o telefone do bolso e discou um número, sua mão ainda segurando o paletó de Thee como se soltar não fosse uma opção.
Thee não fez menção de empurrá-lo. Ele nem considerou dizer a ele para soltar. Na verdade, substituir aquele aperto por segurar as mãos não parecia tão ruim.
— Ei, sou eu... Peach. — O fotógrafo cumprimentou a pessoa do outro lado da linha.
Thee não conseguia ouvir a resposta, mas ficou perto, esforçando-se para ouvir.
— Sobre nossa reunião hoje à noite... Podemos reagendar? Surgiu algo urgente.
A cabeça de Thee se ergueu, seus olhos se arregalando e brilhando com algo suspeitosamente próximo de esperança. Se ele tivesse orelhas e cauda, já estariam em pé e abanando. Peach nunca cancelava planos, nunca. Não a menos que fosse algo sério, como um acidente ou doença súbita. Seu profissionalismo era praticamente lendário. Era esperar demais... que Peach tivesse cancelado por ele?
— Amanhã está bom, claro. Desculpe, Mim.
O nome escapou dos lábios de Peach tão naturalmente, tão suavemente... e em um instante, o calor que estava crescendo dentro de Thee tornou-se gelado. Seus olhos afiados se estreitaram, a suspeita rugindo mais alto do que nunca em sua mente.
Ele se lembrava muito bem desse nome... a ex mais recente de Peach.
Thee cruzou os braços, esperando até que Peach terminasse a ligação. Quando Peach finalmente se virou, deu um pequeno puxão no paletó de Thee, pedindo silenciosamente sua atenção. Aqueles olhos largos e expressivos olharam para ele com um toque de inocência brincalhona, seus lábios se curvaram em um sorriso doce e persuasivo.
— Estou livre hoje à noite... Quer me levar a algum lugar, Thee?
Thee congelou, seus olhos se arregalando ligeiramente ao absorver aquele sorriso. Um leve rubor subiu por suas maçãs do rosto, espalhando-se até as orelhas. Ele engoliu em seco, seu pomo de adão subindo e descendo visivelmente. Algo profundo dentro dele se agitou, inquietante e inegável. Não importava o quanto ele gostasse do momento, a memória do nome da ex de Peach ainda roía no fundo de sua mente, alimentando uma irritação de queima lenta.
Ele fechou os olhos brevemente, recuperando a compostura. Quando os abriu novamente, sua expressão era fria e ilegível, como se nada tivesse acontecido.
— Vamos. Eu te levo lá.
Ele se virou e caminhou para frente, sentindo uma pequena pontada de decepção quando Peach finalmente soltou seu paletó. Enfiando a mão no bolso, Thee puxou o telefone e rapidamente digitou uma mensagem para seu secretário com a velocidade de quem já tinha prática.
“Um relatório completo sobre todos os ex de Peach para amanhã!”
FIM DO CAPÍTULO