CAPÍTULO 22
CAPÍTULO 22
A reunião matinal era uma conferência conjunta com a presença de todo o conglomerado Arseny. Com várias filiais operando no exterior, a maioria das reuniões era realizada online via chamadas de vídeo, permitindo que os representantes relatassem de diferentes cantos do mundo.
Mesmo através da lente fria de uma câmera, a atmosfera intimidadora criada pelos herdeiros Arseny permanecia tão palpável quanto sempre. Os executivos da empresa não apenas preparavam relatórios detalhados, mas também preparavam seus nervos, antecipando a intensidade usual.
Mas hoje, algo inesperado aconteceu. Ele, o chefe da máfia, parecia... alegre. Não apenas ligeiramente agradável, seu comportamento beirava o abertamente amável. Seus lábios até se curvavam para cima às vezes, quase como se um campo de flores se estendesse atrás dele. A imagem entrava em conflito absurdamente com a figura severa e implacável a que todos estavam acostumados.
No entanto, ninguém ousou comentar sobre a estranha mudança. Depois de entregar seus relatórios, os executivos desligaram rapidamente suas câmeras e desconectaram, desaparecendo com uma precisão quase militar.
Apenas dois irmãos permaneceram na chamada, travados em um olhar intenso.
Krichdanai Rome Arseny, o único irmão mais novo de Thee, estudava-o com olhos cinza penetrantes e estreitados que brilhavam de curiosidade. Um sorriso malicioso puxava seus lábios, como se ele tivesse acabado de descobrir um segredo bem guardado.
— Tudo bem, desembucha, Kian. O que aconteceu?
— Nada. — A resposta de Thee foi tão inexpressiva quanto sempre.
No entanto, Rome endireitou-se imediatamente e apontou um dedo acusador para a câmera como se tentasse perfurar a tela.
— De jeito nenhum! Você? De bom humor? Nem tente passar isso como ‘normal’. Eu não compro essa.
Recostando-se em sua cadeira, o sorriso de Rome se alargou ligeiramente. Seu olhar suavizou, tingido de calor genuíno.
— Me ver feliz por uma mudança não é tão ruim, é?
— Assustador! — Rome respondeu instantaneamente, embora sua alfinetada não parecesse incomodar Thee nem um pouco.
Os irmãos Arseny não poderiam ter personalidades mais diferentes, mas o vínculo entre eles era inquebrável. Eles haviam crescido juntos, moldados por lições duras: nunca confie em ninguém, porque um verdadeiro amigo não existe no mundo da máfia. Mas uma regra estava acima de todas: confie no seu irmão mais do que em qualquer outra pessoa. Não importava quão brutal fosse o mundo exterior, a família era a única constante.
É por isso que o comportamento incomumente calmo de Thee se destacava como um farol para Rome, impossível de ignorar.
O sorriso de Thee se alargou ligeiramente enquanto ele relaxava na cadeira, seus ombros visivelmente soltos. Ele estendeu a mão para pegar um sino dos ventos de vidro descansando por perto, girando-o gentilmente entre os dedos.
— Como estão as coisas do seu lado? Mamãe e papai estão bem?
— Estão ótimos. Eles não agem como aposentados de jeito nenhum. — Rome deu de ombros, embora seu olhar permanecesse na mão de seu irmão, ainda mexendo distraidamente no delicado sino dos ventos. — O que é isso na sua mão?
— Um sino dos ventos. — Thee o levantou com orgulho silencioso e o virou para que Rome pudesse ver. — Bonito, não é? Os padrões de ondas são adoráveis, e a concha no fundo é do tamanho certo. Além disso, soa lindo.
Krich revirou os olhos, parecendo exasperado.
— Você está falando dessa bugiganga como se valesse dez mil.
— Vale mais do que aquelas peças de grife caras. Você simplesmente não tem olho para qualidade. — retrucou Thee, sua voz afiada enquanto colocava cuidadosamente o sino dos ventos de volta em seu lugar, protegendo-o como uma relíquia preciosa. Ele não poupou um olhar para a expressão atordoada e fantasmagórica de seu irmão.
— Ei! Kian. Está acontecendo alguma coisa? Desde quando você gosta de bugigangas decorativas assim? — Rome se inclinou mais perto, visivelmente perplexo, como se tentasse decodificar algum significado oculto por trás do sino dos ventos. — É uma peça de marca? Não parece caro.
— Eu gosto dele. — retrucou Thee, seu rosto endurecendo ligeiramente. — Isso é um problema, Rome? Porque se for, posso enviar Mok em uma missão no exterior por um mês na próxima semana.
— Uau, não precisa disso, Kian! — Rome levantou as mãos em rendição, seu rosto adotando uma expressão perfeitamente exagerada de medo fingido, como um cachorrinho repreendido. — Problema nenhum! Aquele sino dos ventos é uma obra-prima. Uma verdadeira obra de arte. Nunca vi um tão requintado e absolutamente inestimável, irmãozão.
A expressão de Thee suavizou apenas o suficiente para mostrar aprovação. Rome sorriu, seus olhos brilhando com malícia novamente.
— Então... quem te deu?
Thee estreitou os olhos friamente e encerrou a chamada sem dizer mais nada. Ele voltou sua atenção para o sino dos ventos em sua mão. Ele sabia que não valia muito. As ondas pintadas eram irregulares, as pinceladas desajeitadas, e havia até pontos onde a tinta havia escorrido. Normalmente, ele não ligava para decorações inúteis. No entanto, segurá-lo o enchia de calor.
Ele o embalou gentilmente, um leve sorriso puxando seus lábios. A conversa frustrante ainda permanecia em sua mente, mas apenas ver o sino dos ventos parecia aliviar a tensão.
— Chefe, aqui estão os documentos adicionais da reunião online anterior.
Seu secretário, Mok, entrou na sala depois de bater três vezes sem resposta. Ele olhou para o sino dos ventos na mão de Thee e suspirou interiormente, sentindo uma onda de pena da pobre coisa. Se estivesse vivo, provavelmente teria murchado de tanto manuseio.
— Chefe... sinos dos ventos devem ser pendurados. — Mok lembrou cautelosamente, esperando que Thee não tivesse esquecido seu propósito real, não usar como uma bola antiestresse improvisada.
— Estou lidando com um problema sério aqui. — murmurou o chefe da máfia friamente, sua expressão mortalmente séria. — Onde devo pendurá-lo? Se eu colocá-lo no meu apartamento, não o verei enquanto estiver no trabalho. Mas se eu pendurá-lo no trabalho, não o verei quando voltar para o condomínio.
Mok fechou os olhos e contou silenciosamente até dez em um esforço para manter a calma. Ele deu um passo à frente e entregou os documentos, ignorando deliberadamente o comentário anterior.
— Estes são relatórios adicionais da última reunião. — explicou. — E este conjunto é para a reunião da tarde.
O foco de Thee aguçou com a menção da reunião da tarde. Ele tinha uma sessão agendada com Peachayarat. Planejava buscá-lo ao meio-dia, de jeito nenhum deixaria o outro dirigir depois de ficar acordado a noite toda. Também seria uma boa desculpa para almoçarem juntos.
Enquanto folheava os documentos, seus dedos tamborilavam levemente contra a mesa. Sua mente vagou, ele havia recebido um presente, mas nunca dera nada a Peach em troca. Ele nem compareceu à celebração pelo lançamento bem-sucedido da coleção de outono.
— Reserve um curso completo de omakase[1] para mim, reserve a sessão inteira. Quero uma sala privada. — ordenou Thee, levantando os olhos dos documentos em suas mãos, completamente alheio à conversa anterior. — Pegue o curso mais caro. Espero qualidade de primeira linha, valendo cada centavo.
[1] Em japonês, “omakase” significa literalmente “deixo nas suas mãos” ou “confio em você”. No contexto da gastronomia, representa uma experiência culinária em que o cliente confia plenamente no chef ou sushiman para escolher e preparar os pratos.
Mok piscou algumas vezes antes de soltar um longo suspiro. Ainda assim, ele assentiu. Se isso deixasse seu chefe feliz, talvez, apenas talvez, ele finalmente recebesse aquele bônus de fim de ano.
…
O som ensurdecedor de um alarme despertou Peach. Cegamente, ele estendeu a mão para silenciá-lo, gemendo enquanto se forçava a sentar. Sua dor de cabeça latejante era um lembrete duro de sua privação de sono, mas com a reunião da tarde pairando sobre ele, ficar na cama não era uma opção. Arrastando seu corpo exausto para o banheiro, ele esperava que um banho frio pudesse limpar a névoa em sua mente. Ultimamente, ele vinha se sentindo pior do que o habitual.
Desde que voltou da viagem à praia, assumiu que era apenas exaustão pelo calor, ele não estava exatamente acostumado a ficar ao ar livre, tendo passado a maior parte do tempo em ambientes fechados.
Depois de vários dias sob o sol escaldante, Peach pensou que poderia se sentir um pouco mal, nada que um dia de descanso não resolvesse. Mas ele claramente calculou mal. Desde que voltou, ele vinha trabalhando até altas horas da noite sem descansar direito, e agora seu corpo estava mostrando sinais de cansaço.
Uma vez vestido, foi direto para o armário de remédios, tomou um analgésico e continuou vasculhando a geladeira. O mingau da manhã já tinha acabado há muito tempo, deixando seu estômago roncando em protesto.
Pensar no mingau o fez parar. Mesmo através da névoa do cansaço e da fadiga quase cegante, ele ainda podia se lembrar vividamente.
Quando Peach entregou o sino dos ventos a Thee, a expressão do homem geralmente inabalável suavizou, inconfundivelmente. O canto da boca de Thee se levantou em um sorriso genuíno, seus olhos brilhando com deleite silencioso, como uma criança recebendo o brinquedo que sempre quis, Peach duvidava que tivesse registrado o que foi dito depois.
Curiosamente, aquele sorriso permaneceu em sua mente, gravado tão profundamente que fez suas bochechas corarem involuntariamente. Peach passou a mão em suas bochechas quentes, atribuindo à febre persistente, embora não pudesse deixar de sorrir ao lembrar-se.
Ele era bastante encantador quando não estava em seu modo habitual rabugento e mandão.
Sem pensar, Peach voltou à realidade quando seu telefone tocou. Ele se espreguiçou, fechou a porta da geladeira e verificou o identificador de chamadas. Vendo o nome exibido, piscou ligeiramente surpreso antes de atender sem hesitação.
— Alô?
— “Peach, por que tão formal?” — A voz doce e familiar do outro lado da linha o fez sorrir levemente. Equilibrando o telefone entre a orelha e o ombro, voltou a procurar na geladeira o café que o Sr. Thee havia guardado atenciosamente lá.
— Não é nada, só um pouco surpreso. — respondeu Peach casualmente, abrindo o saco de café e despejando sobre o gelo. — Então, o que houve, Mim? O que te fez ligar do nada?
— “E se eu disser que sinto sua falta? Você acreditaria em mim?”
— Vou considerar isso no dia em que o sol nascer no oeste. — Seu tom era calmo, mas um pequeno sorriso apareceu em seus lábios. Ouvir o eco da risada de Mim pelo telefone fez seu sorriso aumentar.
Mim era sua ex mais recente. O término deles não tinha sido particularmente doloroso para ele. Ela o havia convidado para sair logo depois que seu relacionamento anterior terminou, admitindo abertamente que estava procurando apoio emocional e um relacionamento passageiro. Peach não se importou; eles já eram relativamente próximos, então ele concordou em tentar. Mas quando ficou claro que os sentimentos deles não se aprofundariam, decidiram mutuamente terminar as coisas.
— “Preciso de um pequeno favor seu.” — disse Mim assim que sua risada diminuiu, sua voz tornando-se brincalhona e persuasiva. — “Meu chefe amou seu trabalho, mas não importava o quanto tentássemos, não conseguíamos entrar em contato com você. Então... tomei a liberdade de ligar para você eu mesma.”
Peach assentiu para si mesmo em compreensão. Ele esteve em férias muito necessárias, completamente desconectado, descansando na praia sem nenhuma preocupação no mundo. Ele também não incluiu seu número de telefone em seu site de trabalho porque gostava de manter sua vida pessoal e profissional separadas.
— Então, você está usando seus privilégios anteriores para me contratar, hein? Mas sem descontos.
— “Por favor! Eu estava mais preocupada que você aumentasse o preço por causa disso.” — resmungou Mim, claramente ciente de que a razão do término não fora das mais graciosas. — “O projeto é super urgente, Peach, e sinto muito por pegar um atalho como este.”
Peach suspirou e tomou outro gole de seu Americano. O gosto amargo aguçou seus sentidos, limpando um pouco de sua fadiga persistente.
— Tudo bem. Entendi. — disse ele calmamente. — Mas já estou ocupado com um projeto. Se o trabalho for urgente, talvez eu não consiga aceitar.
— “Pelo menos encontre meu chefe primeiro.” — implorou Mim gentilmente. — “Então podemos repassar os detalhes. Pense nisso como uma chance de colocar o papo em dia durante o jantar. Você está livre esta noite? Vou reservar seu restaurante favorito.”
Peach franziu a testa pensativamente, olhando para seu calendário. Ele só tinha uma reunião agendada para a tarde, com nada planejado para a noite. Ele até marcou o dia seguinte como dia de descanso, esperando recuperar o sono após várias noites tarde. Uma reunião rápida não faria mal.
— Tudo bem, mas sem promessas. Discutiremos os detalhes esta noite.
— “Fechado! Vou fazer a reserva. Vejo você hoje à noite!” — A voz dela brilhava de excitação antes que a linha desconectasse.
Peach exalou lentamente, levantando a mão para massagear as têmporas enquanto a exaustão se instalava mais uma vez. Naquele momento, seu telefone vibrou novamente. Desta vez, o identificador de chamadas exibia o nome de um certo chefe da máfia.
Por algum motivo, uma estranha sensação de mau pressentimento percorreu sua espinha. Algo lhe dizia que as coisas estavam prestes a ficar complicadas.
FIM DO CAPÍTULO