CAPÍTULO 21
CAPÍTULO 21
Theerakit Kian Arseny, o herdeiro meio russo da máfia que se tornou um magnata do luxo, construiu um império no mundo dos perfumes e joias. Sua fama não se devia apenas à sua beleza marcante ou à sua riqueza insondável; era o fascínio enigmático que ele carregava, um charme magnético que atraía as pessoas para ele onde quer que fosse.
Mas o baile de gala desta noite estava diferente. O ar habitual de arrogância intocável que o cercava havia se transformado em algo muito mais arrepiante, uma aura fria e afiada que fazia a sala parecer dez graus mais fria. A tensão irradiava dele em ondas tão intensas que ninguém ousava se aproximar num raio de cem metros.
Especulações corriam soltas, tentando desesperadamente descobrir o que havia dado errado, o que poderia ter causado tal descontentamento latente no chefe da máfia. Sua irritação mal contida criava uma atmosfera opressiva que até os jornalistas mais ousados hesitavam em desafiar. Claro, eles estavam famintos por uma manchete, mas nenhuma história valia o risco de suas vidas.
Quem imaginaria que seu humor furioso vinha de algo tão ridículo quanto... um pacote perdido de lula crocante e picante?
Ele soltou um longo suspiro frustrado, o aborrecimento persistente ainda agitando seu peito. Ele raramente era alguém que ficava chateado por qualquer coisa. Na verdade, as emoções sempre pareceram distantes e irrelevantes para ele, nem o calor nem a amargura podiam tocá-lo.
Ele não era insensível, apenas... vazio. Desapegado. A única ternura que sentia era reservada para sua família, os únicos capazes de despertar qualquer afeto dentro dele. O mundo exterior nunca conseguiu provocar um único tremor em seu coração cuidadosamente protegido.
E ainda assim, agora... um pacote perdido de lula era suficiente para deixá-lo de mau humor.
Enquanto aceitava uma taça de vinho de um garçom que passava, Thee girou o líquido carmesim suavemente, deixando seu aroma se desdobrar antes de tomar um gole lento. Seu olhar vagou para o palco, onde modelos exibiam a última coleção de perfumes e joias da Falk. Ele se sentia totalmente entediado.
Wivit subiu ao palco, apresentando o projeto como líder da equipe após fazer o discurso de abertura. Atrás dele, a tela exibia a Coleção de Outono, uma imagem cativante de Aran em um terno esvoaçante, seu pulso adornado com uma pulseira de ouro rosa impressionante. Sua expressão era perfeitamente serena, seu olhar firme e ilegível. Mas então, os olhos de Thee pousaram em uma assinatura familiar e elegante discretamente gravada no canto da imagem. Seu olhar suavizou.
Estranhamente, a beleza sedutora do modelo, algo que outrora o fascinara, empalidecia em comparação com a atração daquela pequena assinatura familiar.
O chefe da máfia baixou ligeiramente os olhos. Não era a primeira vez que seu coração ficava quieto e cauteloso. Além de sua família, ele nunca se importou profundamente com mais ninguém. Mas Peach... Peach o fazia sentir-se em paz, uma presença calmante que aquietava sua mente inquieta. Com Peach, ele se sentia seguro, livre para ser seu verdadeiro eu sem medo de traição ou dor.
Aquele calor inesperado floresceu dentro de seu peito, doce e reconfortante. Era algo que ele agora não estava disposto a deixar ir, um sentimento que ficava mais forte a cada dia que passava. Ele queria que a Peach visse apenas ele, se importasse apenas com ele e ficasse perto o suficiente para que pudesse alcançá-lo.
A intensidade daquela necessidade aumentou, perigosamente perto da superfície.
Uma súbita explosão de aplausos o tirou de seus pensamentos. Ele olhou para cima e viu Wivit de pé orgulhosamente no palco, peito estufado, usando um sorriso triunfante. A expressão de Thee escureceu, e a frieza voltou ao seu olhar. A breve suavidade em suas feições desapareceu como uma brisa passageira..
Peach podia ser tímido, pode pressionar e puxar o suficiente para testar os limites. Mas não com ele. Nunca com ele.
A escuridão rodopiante nos olhos de Theerakit só diminuiu quando seu secretário se aproximou, quebrando a atmosfera tensa, embora sua carranca tenha se aprofundado ainda mais.
— Chefe, por que você não come alguma coisa? — O secretário ofereceu-lhe um prato de comida, habilmente pegando a taça de vinho da mão de Thee. — Beber vinho de estômago vazio vai te deixar bêbado.
— Traga-me a lula picante.
— Você não come lula, chefe.
Mok insistiu firmemente, sua voz estável, embora mentisse descaradamente sem o menor sinal de culpa.
— Se eu como ou não é problema meu, mas eu quero.
— Talvez você devesse apenas dizer ao Peach diretamente que está chateado porque ele não trouxe uma lembrança para você.
Mok suspirou, lamentando genuinamente a lula crocante ainda escondida em sua própria bolsa.
Theerakit cruzou os braços, levantando ligeiramente o queixo, seu orgulho praticamente palpável.
— Por que eu deveria implorar por um lanche barato?
Enquanto dizia isso, questionou a si mesmo. Ele nem gostava de lula. Odiava comida picante. E era apenas um lanche comum, fácil de encontrar em qualquer lugar. Por que estava tão chateado com algo tão trivial? Seus lábios se pressionaram em uma linha fina enquanto ele descartava a irritação fervendo dentro dele. Ele não estava disposto a perder tempo analisando suas emoções... não agora.
Enquanto o chefe da máfia lutava com seus pensamentos, não percebeu o brilho astuto e travesso nos olhos de Mok, enquanto seu assistente lhe oferecia um sorriso enganosamente doce.
— Se fosse um presente do Sr. Aran, você ainda estaria tão chateado, chefe?
Theerakit ficou tenso. Ele quase esquecera aquele nome, mas ouvi-lo agora conjurou uma imagem do rosto impossivelmente perfeito de Aran de uma sessão de fotos promocional anterior. Estranhamente, não sentiu nada. Apenas uma memória fraca e distante, como uma fotografia antiga que ele parou de olhar há muito tempo.
Ele percebeu que seu interesse havia desaparecido completamente, a ponto de até pensar em Aran parecer inútil..
Mas então... outro rosto surgiu, o de Peach.
Aquele sorriso calmo, suas bochechas ligeiramente inchadas por morder um sanduíche recheado demais. O brilho das lágrimas deslizando pelo rosto como pedras preciosas caindo. Peach não era convencionalmente bonito, não como Aran. Mas algo nele fazia o coração de Theerakit torcer de uma maneira que ele não conseguia explicar.
Mok, notando que seu chefe estava perdido em pensamentos, sorriu ainda mais, incapaz de resistir e implicar um pouco mais.
— Isso se chama ser possessivo, chefe.
Naquele momento, Mok notou as orelhas de seu chefe ficando vermelho-vivo.* Os olhos afiados e intimidadores se arregalaram ligeiramente de surpresa.
— Ridículo! — Theerakit murmurou baixinho, sua voz baixa e áspera como um rosnado, mas o rubor persistente tirou das palavras qualquer ameaça real.
Sorrindo silenciosamente, Mok mentalmente elevou a importância do fotógrafo na vida de seu chefe. Satisfeito com sua pequena alfinetada, parou de provocar... por enquanto. Seu olhar varreu os arredores, garantindo que ninguém estivesse ao alcance da conversa deles. A maior parte da multidão parecia fixada no palco, deixando-os imperturbáveis.
Baixando a voz, Mok mudou para o modo de negócios, entregando as atualizações do dia. Como assistente de Theerakit, ele lidava com todas as comunicações não críticas. Todos em seu círculo sabiam que, se quisessem algo da família Arseny, tinham que passar por ele, não apenas por razões de segurança, mas também devido às muitas agendas ocultas da família. Cada assunto tinha que ser roteado pelos canais adequados.
Após uma breve pausa, Mok olhou para baixo antes de entregar o relatório final.
— O Sr. Krich me informou que voará para a Tailândia na próxima semana.
A sobrancelha de Theerakit arqueou com a menção de seu irmão mais novo. Seus olhos brilharam com malícia enquanto se virava para Mok, um sorriso presunçoso puxando o canto de sua boca.
— Quanto tempo Rome vai ficar?
— Um mês.
— Ótimo. Vou tirar o mês inteiro de folga e deixá-lo em suas mãos.
— Isso não vai acontecer. Ainda há muito trabalho a fazer. — Mok respondeu firmemente, seus lábios se curvando ligeiramente para baixo. — Você deveria se preparar para sair, chefe. — continuou ele, seu tom voltando ao profissional. — Você tem uma reunião online logo de manhã.
— Atrase a reunião em algumas horas. — Ele parou de divagar e mudou para o modo de comando com seu secretário. Sua mente vagou para alguém que provavelmente estava trabalhando até tarde da noite. — E prepare dois conjuntos de sanduíches e Americanos gelados.
…
Exausto além da medida, Peach desabou em sua cadeira de escritório, mal conseguindo manter os olhos abertos. A tela do computador confirmou que seu último e-mail havia sido enviado, permitindo que ele finalmente se recostasse com uma sensação de alívio.
Não era como se ele nunca tivesse virado uma noite antes, mas isso não significava que gostasse, especialmente depois de um dia inteiro trabalhando, apenas para voltar para casa e mergulhar direto em mais trabalho. A rotina o havia drenado completamente…
Ele tirou os óculos de computador e esfregou as têmporas, tentando aliviar a dor que irradiava de seus olhos cansados. Seu estômago roncou alto, lembrando-o de que o macarrão instantâneo de mais cedo já havia sido digerido há muito tempo. Estava exausto demais para se preocupar em preparar uma refeição adequada, então decidiu ignorar a fome e se encolher em sua cadeira para um cochilo rápido.
Assim que estava prestes a desfrutar de seu descanso tão necessário, o som agudo de sua campainha perfurou o silêncio como uma espada. Peach gemeu, afundando mais fundo em sua cadeira em uma negação teimosa. Mas o toque incessante não parou. Após um momento de sofrimento interno, forçou seu corpo cansado a se levantar e arrastou-se em direção à porta.
Ficando na ponta dos pés, espiou pelo olho mágico e congelou.
Do lado de fora estava ninguém menos que Thee, parecendo a segundos de apertar a campainha novamente. Peach abriu a porta.
— O que o traz aqui tão cedo, Sr. Thee? — Ele murmurou, sufocando um bocejo tão forte que lágrimas brotaram em seus olhos.
O chefe da máfia hesitou por uma fração de segundo, seus olhos cinza tempestuosos varrendo Peach da cabeça aos pés — cabelo bagunçado, sonolento, olhos cheios de lágrimas, uma camiseta oversized e esticada que expunha suas clavículas, e shorts mal visíveis sob a bainha da camisa, revelando pernas longas e tonificadas. Para Peach, isso era uma roupa de ficar em casa perfeitamente normal. Afinal, ele estava prestes a desmaiar. Mas por alguma razão, a expressão de Thee escureceu ameaçadoramente.
Sem uma palavra, Thee agarrou-o firmemente pelos ombros e empurrou-o de volta para o apartamento. Seu olhar afiado cintilou em direção ao corredor do condomínio, procurando por espectadores em potencial. Uma vez que teve certeza de que ninguém tinha visto Peach naquele estado, bateu a porta e a trancou. Virando-se, lançou a Peach um olhar de desaprovação.
— Sua roupa parece inapropriada. Você está planejando se exibir para alguém?
A voz de Thee saiu baixa e rouca, sua expressão severa.
Cansado demais para decifrar seu significado, Peach simplesmente franziu a testa em confusão e respondeu sem rodeios, imperturbável pelo tom intimidador.
— Estou prestes a dormir, então é claro que estou de pijama. O que você espera, um terno? — Ele fez uma pausa para bocejar, apertando os olhos enquanto massageava as têmporas. — E são seis da manhã. Quem mais viria além de você?
O rosto de Thee suavizou instantaneamente, como se alguém tivesse virado um interruptor. Por um momento, Peach poderia jurar que viu brilhos cintilando no ar atrás dele.
Aparentemente, a audição seletiva de Thee não registrou o sarcasmo.
— Só eu, certo? — Thee perguntou, sua voz subitamente leve e alegre.
Ainda grogue e meio acordado, Peach só pôde assentir preguiçosamente. Pessoas normais não apareciam na casa de alguém às seis da manhã.
Ignorando o olhar pouco entusiasmado de Peach, Thee entrou mais no apartamento, suas longas pernas movendo-se com propósito. Ele agarrou o braço de Peach e o guiou em direção à mesa de jantar, pressionando-o gentilmente em uma cadeira. Só então Peach notou as duas sacolas plásticas que Thee carregava, liberando um delicioso aroma de mingau.
— Eu ia pegar aquele sanduíche que você gosta, mas Mok disse que mingau seria melhor. — explicou Thee, franzindo a testa ligeiramente enquanto se questionava.
Peach assentiu avidamente, instantaneamente de acordo. Algo leve e fácil para o estômago era exatamente o que ele precisava depois de uma noite tão longa. O aroma saboroso da comida o tirou ainda mais de sua moleza. Lançando um rápido olhar para Thee, levantou-se e, sem pensar duas vezes, pegou duas tigelas do armário.
Voltando para a mesa, abriu cuidadosamente as sacolas e despejou o mingau fumegante nas tigelas, fiapos de vapor branco enrolando-se preguiçosamente no ar. Ele adicionou mini bastões de massa frita crocantes, gengibre em fatias finas e um fio de molho de soja para dar sabor extra. Empurrando uma tigela em direção a Thee, Peach sorriu calorosamente.
— Obrigado. Coma comigo. — disse Peach com um largo sorriso. Seu estômago roncava, e ter comida aparecendo em sua porta sem levantar um dedo instantaneamente o deixou de bom humor.
O chefe da máfia parou brevemente, seus olhos suavizando de uma maneira quase perceptível.
— Você quer que eu compre uma loja de mingau para você?
— Não, obrigado. — Peach recusou categoricamente, já acostumado com as ofertas exageradas de Thee. Ele não levou a sugestão a sério, nem um pouco.
Depois de terminar sua tigela, sentiu-se agradavelmente cheio, o calor se espalhando por seu corpo, fazendo suas pálpebras ficarem ainda mais pesadas. Peach empilhou preguiçosamente as tigelas vazias na pia, decidindo lidar com elas depois de acordar por volta do meio-dia.
— Trouxe um pouco de café para você, está na geladeira. Durma um pouco e beba quando acordar ao meio-dia. — disse Thee enquanto o seguia até a cozinha, segurando um copo de um café popular. Um leve sorriso puxou seus lábios quando notou Peach parecendo sonolento novamente. — Volto ao meio-dia para te buscar.
Peach assentiu distraidamente, mal processando as palavras.
Enquanto Thee se dirigia para a porta, um pensamento repentino o atingiu. Ele chamou Thee para esperar e correu para seu espaço de trabalho. Quando voltou, segurava um sino dos ventos.
O sino dos ventos de cristal desbotava de azul profundo nas bordas para branco puro no centro, decorado com elegantes padrões de ondas giratórias que pareciam quase vivas. Uma concha delicada com um tom rosa suave pendia da ponta, produzindo um som claro e suave com o menor movimento.
— Isso é para você. Desculpe, está um pouco atrasado. Eu mesmo pintei as ondas, e acabou de secar. — disse Peach com um sorriso orgulhoso. — Dizem que o som dos sinos dos ventos ajuda a acalmar a mente. Talvez você possa pendurá-lo e ver se funciona para você.
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* N/Tradutora: Não costumo deixar comentários nas traduções que faço, mas senti a necessidade de dizer algo. Este capítulo foi a confirmação que eu precisava para poder afirmar com 100% de certeza que Pond Naravit nasceu para interpretar o Thee na série de Me And Thee. As orelhas vermelhas nunca mentem…
FIM DO CAPÍTULO