CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 11
Ele nunca tinha sido ignorado por ninguém antes. Sentado de pernas cruzadas no carro, com seu iPad aberto em um documento em sua mão, ele não conseguia se concentrar em uma única palavra. Tudo ao seu redor estava silencioso, silencioso demais, na verdade. Sem distrações. Nada para quebrar o silêncio.
Era silencioso demais.
Ele olhou para o jovem fotógrafo sentado ao lado dele. Desde que saíram do restaurante, Peach estava extraordinariamente quieto, evitando contato visual e mantendo distância. Mesmo agora, enquanto estavam juntos no carro, havia apenas esse silêncio opressivo entre eles.
Normalmente, Peach também não falava muito. Quando compartilhavam caronas assim, o silêncio era garantido. Mas naquela época, a presença de Peach parecia... quente. Como sentar sob uma grande árvore em um dia ensolarado, calmo, seguro, mas tranquilo e relaxante.
Mas desta vez, não era assim. Esse silêncio não era quente ou confortável. Era sufocante, e Thee não gostava disso.
Ele roubou outro olhar para o rosto de Peach. Objetivamente, ele era bonito, talvez não do tipo que faz cabeças virarem na multidão, mas sua aparência era inegavelmente agradável: pele clara, olhos amendoados ligeiramente estreitos que sempre brilhavam com um brilho suave.
Thee sempre gostou daqueles olhos. Ele gostava de como eles o refletiam, como se pudesse se ver claramente neles. Mas agora? Não havia nem uma sombra dele naqueles olhos.
O chefe da máfia deixou o olhar cair, descendo para os ombros esbeltos de Peach, antes de parar em seu pulso. As marcas vermelhas se destacavam vividamente, a forma dos dedos de Thee ainda visível. A pele pálida de Peach tornava os hematomas ainda mais perceptíveis, quase chocantes.
Thee pressionou os lábios, sentindo de repente que deveria dizer algo. Ele voltou o olhar para o iPad em sua mão, mas não importava o quanto tentasse, ainda não conseguia focar no documento à sua frente. Seus pensamentos continuavam voltando para Peach.
Não demorou muito para o carro parar. Parecia que haviam chegado ao lugar que Peach mencionara antes. Thee tinha se oferecido para deixá-lo em casa, mas Peach recusou, dizendo que precisava pegar o carro da irmã e não queria incomodar.
Um incômodo? Thee tinha oferecido! Pessoas praticamente imploravam pela chance de andar com ele, e esse cara o recusava?
— Agradeço a carona. Obrigado, Sr. Mok. — disse Peach, assentindo levemente para Thee antes de oferecer um sorriso fraco para Mok, o guarda-costas/secretário que também atuava como motorista naquela noite.
A testa de Thee franziu instantaneamente quando viu Mok sorrindo de volta para Peach pelo espelho retrovisor. Ele abriu a boca para dizer algo, mas antes que pudesse pronunciar uma palavra, Peach já havia aberto a porta e saído.
Thee observou enquanto Peach fechava a porta e entrava na loja. Ele não desviou o olhar até ver Peach desaparecer lá dentro. Só então deu um aceno para Mok dirigir.
Pela quarta vez, seus olhos examinaram a mesma linha de texto no iPad sem registrar uma única palavra. Frustrado, fechou o dispositivo com um estalo e cruzou os braços, fixando Mok com um olhar afiado que poderia cortar vidro.
— Há quanto tempo vocês dois são amigos?
Sua voz era calma, quase assustadoramente, mas o tom gelado poderia fazer um homem mais fraco desabar no chão em pânico. Mok, no entanto, estava acostumado com os humores de seu chefe. Ainda assim, não pôde deixar de tensionar os ombros ligeiramente, escolhendo suas palavras com cuidado.
— Não somos amigos, senhor. Nós nos encontramos duas vezes. — disse Mok calmamente antes de acrescentar. — O Sr. Peach tem boa memória para rostos. Ele mencionou que eu lhe dei uma carona uma vez e quis me agradecer por isso.
O olhar de Thee baixou e ele não questionou mais. Ele já sabia que Peach tinha um jeito de ser amigável com as pessoas sem esforço. O cara era fácil de conversar, rápido para sorrir e sempre parecia ter esse instinto natural de cuidar dos outros.
Thee pressionou os lábios, incapaz de impedir a si mesmo de pensar no jantar mais cedo. Foi a primeira vez que alguém genuinamente se importou se ele havia comido ou não. Mesmo chateado, Peach ainda grelhou a carne e a colocou no prato de Thee, como se de alguma forma soubesse que Thee não estava acostumado a fazer essas coisas por si mesmo.
Muitas pessoas estavam dispostas a agradá-lo, mas as ações de Peach pareciam tão naturais. Por algum motivo, elas não o faziam sentir-se irritado ou desconfortável. Isso era novo.
Seus pensamentos voltaram para as marcas vermelhas no pulso de Peach, claras e furiosas contra sua pele pálida. Thee franziu a testa, a irritação borbulhando novamente.
— Mande uma pomada para hematomas para ele esta noite. — disse ele, seu tom casual, quase desapegado. — E certifique-se de que alguém a entregue pessoalmente.
Mok respondeu com um reconhecimento silencioso, longe de estar surpreso com os ocasionais lampejos de bondade incomum de Thee. O secretário decidiu armazenar esse momento em sua memória.
Peach poderia não ter nenhum status oficial na vida de Thee ainda, e o ar entre eles hoje tinha sido cheio de tensão não dita, mas Mok estava certo de uma coisa: este fotógrafo se tornaria alguém importante para ele.
Poderia ser sábio começar a se preparar para receber um futuro ‘chefe’ em suas vidas.
Peach seguiu a localização que sua irmã enviou, chegando ao restaurante-bar que ela mencionara. O lugar tinha uma área de churrasco na cobertura no segundo andar, com música ao vivo do nível inferior ecoando no espaço ao ar livre acima.
Ele foi direto para cima, examinando a área até avistá-la imediatamente. Sua irmã era pequena, mal alcançando seu ombro, com uma estrutura esbelta vestida com uma camisa oversized e calças justas. Seu cabelo tinha mechas vermelhas brilhantes que cintilavam sob as luzes, e seu rosto, salpicado de sardas fracas, era emoldurado por grandes óculos redondos prateados.
Seu visual era uma mistura caótica de estilos, mas de alguma forma, ela fazia funcionar. Além disso, combinava com ela, considerando que ela havia se formado em artes plásticas e agora trabalhava em um departamento de arte.
— Você está bêbada, Plub? — Ele perguntou, plantando a mão no quadril e estreitando os olhos com desconfiança.
Plub sorriu, tão largo que seus olhos quase desapareceram, e levantou o copo para mostrar a ele.
— Dois drinks. Você acha que isso é o suficiente para me deixar bêbada? — Ela provocou, esticando as palavras em um tom brincalhão.
Ele riu, trocando cumprimentos casualmente com os colegas de trabalho de sua irmã. Todos se moveram para abrir espaço para ele se sentar, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Não era a primeira vez que ele vinha buscar Plub. Sendo apenas os dois na família, era natural que ele fosse protetor. Ainda assim, eles tinham aprendido a dar espaço um ao outro para não se sentirem sufocados. Mas uma regra sempre permaneceu subentendida, sempre que Plub saía para beber, estivesse ela um pouco altinha ou completamente sóbria, mesmo que fosse apenas um drink, ela pedia para ele buscá-la, e ele nunca dizia não. Nem uma vez.
Ele também havia trabalhado com a chefe de Plub muitas vezes antes, ajudando com pequenas tarefas com tanta frequência que era praticamente um membro honorário de sua equipe.
— Então, qual é a ocasião esta noite? — Ele perguntou, recusando uma bebida que um dos colegas dela lhe ofereceu. Ele tinha que levar Plub para casa, e de jeito nenhum arriscaria ter álcool em seu sistema.
— Nuch está saindo. — respondeu Plub, com o prato cheio de comida enquanto se sentava ao lado dele, espremendo-se no pequeno espaço. Ela empurrou o prato em direção a ele. — Provavelmente ficaremos um pouco mais. Você devia comer alguma coisa, Peach. Não me diga que acabou de acordar. Eu te disse para parar de ficar acordado até tarde, não disse?
Peach, ainda cheio do churrasco caro de mais cedo, balançou a cabeça e recusou a comida. Sua irmã o olhou com desconfiança.
— Você já comeu? O que você comeu? Se você me disser que foi macarrão instantâneo de novo, juro que te bato.
Ele piscou para ela, lutando internamente para encontrar uma resposta. Se admitisse ter comido churrasco, ela nunca o deixaria esquecer. Plub sabia que ele raramente saía de casa, muito menos saía sozinho para algo tão indulgente quanto uma refeição de churrasco.
Mas a alternativa não era muito melhor. Se ele dissesse que tinha ido com alguém, ela ia querer saber quem, e deixar o nome do mafioso escapar só abriria uma nova caixa de problemas.
O jovem hesitou por um momento antes de forçar um sorriso seco e esquivar completamente da pergunta. Em vez disso, mudou rapidamente de assunto.
— Então, por que a Nuch está saindo?
Ele estava se referindo à líder do projeto, alguém com quem ele havia trabalhado três das quatro vezes anteriores. Nuch era brilhante, tomava decisões sensatas, tinha fortes habilidades de liderança e sempre cuidava de sua equipe. Todos que tiveram a chance de trabalhar em um projeto com ela ficaram emocionados.
— Ela está grávida e quer focar em se preparar para o bebê. — respondeu Plub, aceitando a mudança de assunto sem muito alarde. — No começo, Nuch nem ia aceitar o projeto ‘All Seasons: One Word’, sabe? Mas depois que você ajudou a debater o conceito, ela decidiu fazer. E agora que a coleção de outono ficou tão boa, ela se sente confiante em deixar as coisas para trás e simplesmente renunciou.
O projeto “All Seasons: One Word”, uma grande campanha combinando perfumes com joias, era enorme. Incluía quatro minicampanhas publicitárias sazonais, a estratégia principal de publicidade, o conceito e até os rascunhos iniciais do storyboard. Tudo trabalho dele.
Honestamente, ele estava apenas brincando na época. Tinha terminado todas as suas outras tarefas e não tinha mais nada em sua agenda quando Nuch apresentou o projeto. Conversando casualmente com Plub, as ideias começaram a fluir, e ele desenvolveu o conceito apenas por diversão. Ele nunca esperou que ela realmente o levasse para a reunião, muito menos que a equipe o aprovasse!
— Então, quem vai assumir a equipe agora? — Ele perguntou, abrindo a lata de Coca-Cola que Plub lhe dera e tomando um gole. Sua mente repassou uma lista de pessoas que conhecia que poderiam assumir o papel de liderança. Uma mudança de liderança às vezes significava uma mudança em toda a dinâmica da equipe, ou pior, uma reformulação completa da direção do projeto.
— Nenhuma ideia ainda. Estou curiosa também. — disse Plub casualmente, esticando o pescoço para olhar ao redor antes de acenar entusiasticamente para alguém. — Nuch! Peach está aqui!
Peach deu um tapinha na testa da irmã, repreendendo-a por se dirigir à superior tão informalmente, antes de se levantar rapidamente para cumprimentar Nucharin.
Nuch era alta e elegante, vestida com calças justas que enfatizavam suas longas pernas, combinadas com um top cropped sob um blazer sob medida. Seu corte pixie estava perfeitamente estilizado, dando-lhe um visual chique e ousado que chamava a atenção. Quem pensaria que ela já estava grávida de três meses?
— Parabéns, Nuch. — Peach a cumprimentou com um sorriso caloroso, olhando brevemente para a barriga dela. Como sua gravidez ainda estava nos estágios iniciais, não havia muitas mudanças visíveis, mas ele não pôde deixar de se sentir animado.
— Obrigada, Peach. Mas não se esqueça, esta não é apenas uma festa de despedida para mim, é também uma festa de agradecimento. — Ela sorriu radiante, claramente de bom humor, antes de dar alguns tapinhas em seu ombro. — A campanha ficou incrível, como sempre. O feedback tem sido fantástico!
— Já saiu para promoção? — perguntou ele, esfregando o ombro reflexivamente. Nuch sempre teve a mão pesada. Ele não pôde deixar de se perguntar como o filho dela se sentiria se algum dia se comportasse mal e levasse um tapinha de repreensão. Embora talvez ela fosse mais gentil. Pelo menos Plub nunca tinha recebido aqueles tapinhas no ombro.
— As primeiras imagens promocionais da coleção de outono acabaram de sair. A resposta tem sido fenomenal. Estamos encerrando a filmagem do anúncio amanhã e, após alguns toques finais, tudo deve estar pronto para o lançamento de uma só vez.
— É ótimo ouvir isso. — respondeu Peach em tom calmo. Como a pessoa por trás do conceito, ouvir um feedback tão positivo sempre lhe dava uma sensação de orgulho. — A propósito, você sabe quem vai liderar a equipe?
No momento em que ele perguntou, a atmosfera ao redor de Nuch mudou. Foi como se uma nuvem tivesse subitamente se instalado sobre seu comportamento geralmente gentil.
Ela pegou o braço dele e o levou um pouco para longe da mesa, sua voz caindo para quase um sussurro.
— O novo líder da equipe ainda não foi anunciado oficialmente. Eles ainda estão finalizando na reunião da alta gerência. A reunião da equipe de amanhã é quando farão o anúncio. Você deveria estar lá também.
Ela fez uma pausa, parecendo tão desconfortável que Peach se sentiu compelido a oferecer um sorriso tranquilizador.
— Não se preocupe, Nuch. Você não precisa me dizer agora. Eu simplesmente apareço amanhã e descubro com a Plub na sala de reuniões.
Mesmo que Peach tenha levado na esportiva, sua quase ex-chefe tinha uma expressão séria.
— Ouvi algumas coisas. — admitiu Nuch calmamente. — Eu realmente tentei resistir. Mas receio que as probabilidades não estejam a meu favor.
Peach franziu a testa, agora genuinamente curioso. Nuch era o tipo de pessoa que se dava bem com todos. Então, quem quer que ela estivesse ativamente se opondo, o suficiente para parecer visivelmente preocupada, tinha que ser um grande problema.
Ela pressionou os lábios, claramente inquieta, antes de dar-lhe alguns tapinhas no ombro e falar com uma voz suave e tranquilizadora.
— Apenas esteja preparado, ok? Mas não pense demais nisso. Você é a pessoa mais talentosa que conheço. Sério.
Com isso, ela soltou outro longo suspiro e disse para ele voltar e aproveitar a festa. Sua expressão rapidamente se transformou em um sorriso brilhante enquanto ela se juntava perfeitamente aos outros, conversando e rindo como se nada tivesse acontecido.
Enquanto isso, Peach ficou lá, oprimido por uma montanha de perguntas, imaginando se conseguiria dormir esta noite. Quanto mais ela tentava tranquilizá-lo, mais inquieto ele se sentia. Se ela quisesse acalmar sua mente, deveria apenas ter lhe dito a verdade. Pelo menos então, ele saberia o que esperar.
Peach soltou um suspiro pesado, um nome específico surgindo em sua mente. Ele passou a mão frustrada pelo cabelo.
Que tipo de azar foi esse hoje, afinal?
FIM DO CAPÍTULO