CAPÍTULO 33
CAPÍTULO 33
Plub estava sentada em frente à panela de shabu fumegante, braços cruzados e lábios franzidos. À sua frente estavam dois homens. O menor, sentado mais para dentro, era seu amado irmão mais velho, mas o homem maior na ponta era alguém que ela nunca imaginou que veria em um restaurante de shabu barato em sua vida.
— Você se importaria de explicar o que está acontecendo aqui, Peach? — Plub perguntou, seu tom afiado enquanto ela teimosamente se recusava a pegar seus pauzinhos.
Peach, como sempre, não se incomodou em responder. Em vez disso, mergulhou uma fatia de carne de porco no caldo borbulhante, girou-a algumas vezes e depois a colocou cuidadosamente no prato dela.
— Tentando me calar com comida, hein? — Ela retrucou, estreitando os olhos, embora ainda tenha enfiado a carne na boca sem hesitação. — Não pense que uma fatia será suficiente!
Peach riu baixinho, pegando mais carne e vegetais para cozinhar para ela, seus esforços para apaziguá-la óbvios. Enquanto isso, a figura imponente ao lado dele, ninguém menos que Thee, notou e casualmente pediu outra rodada de bandejas de comida, como se a montanha de pratos que eles já tinham não fosse suficiente.
Quando entraram no restaurante, o Sr. Thee quase insistiu em comprar o lugar todo. Peach gastou uns bons cinco minutos tentando explicar a taxa de penalidade por pedir demais e deixar comida sobrando. Thee, imperturbável, simplesmente levantou uma sobrancelha, achando difícil entender quanto tudo aquilo realmente custava.
Peach mal resistiu à vontade de arrancar os cabelos de frustração. Não era pelo dinheiro, era pelo princípio! O código sagrado dos frequentadores de buffet: Se você pediu, você come! Claro, ele só puxou o próprio cabelo em exasperação. De jeito nenhum ele ousaria tocar no de Thee.
Plub, ainda comendo, lançou-lhe um olhar afiado, claramente não impressionada. Peach, preso entre a culpa e a pressão crescente do olhar dela, finalmente cedeu e começou a explicar. Sua voz era cuidadosamente neutra, como se tentasse fazer a situação parecer menos estranha do que realmente era.
— O Sr. Thee cobriu todas as minhas contas hospitalares quando fui internado — disse ele, parando para respirar. — Então pensei em pagar uma refeição para ele como agradecimento.
Peach quase mordeu a língua. Ele quase nunca mentia para sua irmãzinha. Claro, metade do que ele disse era tecnicamente verdade, mas a culpa já o estava corroendo. O que ele deveria dizer? Que o chefe da máfia sentado à frente deles tinha feito bico e insistido em vir junto? Quem em sã consciência acreditaria nisso?!
— Ora, ora! O Sr. Thee deve ter um coração tão bondoso! — Plub exibiu um sorriso deslumbrante que fez seus olhos se estreitarem ligeiramente. Para seu irmão mais velho, no entanto, aquele sorriso excessivamente doce era muito mais aterrorizante do que sua carranca habitual. — Mas um lugar barato como este não parece combinar com seus gostos. Talvez devêssemos guardar um jantar de agradecimento adequado para outra hora, hum?
Thee levantou uma sobrancelha ligeiramente, captando claramente a tentativa não tão sutil dela de dispensá-lo, mas não pareceu se importar. Em vez disso, o homem alto recostou-se em seu assento com uma atitude relaxada, bebendo o chá verde barato do restaurante como se não tivesse nenhuma preocupação no mundo.
— Está tudo bem. Essas coisas são medidas pelo coração, não pelo preço.
— Mas você deve estar se afogando em trabalho, Sr. CEO. Como Peach conseguiu convidá-lo de última hora? — Plub pressionou, recusando-se a recuar. — De qualquer forma, acho que seria melhor se você voltasse agora. Eu não gostaria de desperdiçar seu tempo valioso.
— Não é um desperdício. Se for sobre seu irmão, sempre arranjarei tempo.
Essa resposta calma fez Peach engasgar com o chá, tossindo tão forte que a mesa inteira se virou para olhar para ele. Plub, por outro lado, congelou no lugar, boca aberta e olhos arregalados, encarando o presidente, que gentilmente se inclinou para dar tapinhas nas costas de Peach como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Plub rapidamente pegou um guardanapo e entregou a Peach antes de se inclinar em direção a ele, baixando a voz para um sussurro agudo.
— Peach... isso é... o que eu acho que é?!
Peach pressionou os dedos nas têmporas. Todos os seus esforços de apenas dez minutos atrás tinham ido pelo ralo. Com um suspiro resignado, assentiu levemente, quase imperceptível, mas o suficiente para fazer Plub explodir de excitação.
Ela cobriu a boca com as mãos, os olhos brilhando com um grito silencioso de alegria. Seus ombros tremiam enquanto ela praticamente vibrava no lugar, o rosto brilhando com uma felicidade contagiante. Assim que conseguiu se recompor, Plub limpou a garganta, ainda corada, mas sua expressão ficou séria. Ela se inclinou para frente e, no tom mais sério imaginável, perguntou:
— Sr. CEO... você está tentando cortejar meu irmão?
O queixo de Peach caiu e ele quase podia sentir o calor inundando seu rosto, espalhando-se tão rapidamente que parecia que seus ouvidos tinham parado de funcionar. Ele esqueceu completamente de parar Plub, esqueceu que sua irmãzinha era ousada, impulsiva e o oposto polar de sua natureza reservada. Mas ele não esperava que ela fosse tão impulsiva!
— Não me chame de ‘CEO’, apenas ‘Sr. Thee’ está bom. — respondeu o chefe da máfia, completamente imperturbável pela franqueza da pergunta. Ele parecia absolutamente relaxado, mais do que Peach jamais o vira. — Se as coisas correrem bem, talvez algum dia você me chame de P’Thee[1].
[1] P’: abreviação de Pi, é a forma de se referir a pessoas mais velhas. Também pode significar “irmão mais velho”, neste contexto, seria “Irmão Thee”.
Peach congelou no meio do pensamento, qualquer desculpa que estivesse prestes a dar foi imediatamente apagada de sua mente. Foi como se alguém tivesse jogado uma granada nele, deixando apenas um zumbido nos ouvidos e uma necessidade desesperada de desaparecer.
Plub, por outro lado, baixou a cabeça e cerrou o punho, batendo repetidamente no assento como se estivesse cheia de pura excitação. Depois de um momento, respirou fundo e audivelmente e olhou para cima novamente, sua expressão agora perfeitamente composta, como se nada tivesse acontecido.
Peach, no entanto, não aguentava mais. Virou a cabeça, levantando a mão para cobrir parcialmente o rosto em uma tentativa fútil de esconder seu constrangimento crescente. Ele estava muito perto de bater a cabeça contra a parede para acabar com o pesadelo.
Numa tentativa desesperada de se manter ocupado, Peach concentrou-se intensamente em mergulhar carne e vegetais no caldo de shabu como se sua vida dependesse disso. Com mãos determinadas, empilhou comida nos pratos para os outros dois, esperando que forçá-los a comer pudesse de alguma forma distraí-los de seu ridículo concurso de encarar.
Levou um tempo para se recompor, mas assim que sentiu que seu rosto havia retornado à cor normal, Peach finalmente ousou limpar a garganta e direcionar a conversa para uma direção diferente.
— Então... como está o trabalho? — perguntou ele, pulando para a pergunta que mais o incomodava. Afinal, ele esteve fora do radar por três dias inteiros e tanto seu chefe quanto sua irmãzinha haviam se esforçado para mantê-lo no escuro sobre quaisquer atualizações. Provavelmente porque temiam que ele saísse da cama, pegasse o laptop e começasse a trabalhar, ou pior, pegasse a câmera e saísse porta afora.
— A coleção de inverno foi suspensa. Felizmente, eu não tinha começado a desenhar a revista ainda. Agora, estamos no meio de entrevistas com um novo modelo para a campanha. — respondeu Plub entre mordidas de carne de porco com queijo, saboreando cada bocado.
Peach apertou os lábios com força, sentindo a culpa crescer em seu peito. Embora logicamente soubesse que não era inteiramente culpa dele, os efeitos colaterais da situação haviam afetado claramente os outros e isso por si só era suficiente para fazê-lo se sentir desconfortável.
— Sinto muito. Causei problemas para todos. — disse ele com um leve sorriso de desculpas, seus olhos escurecendo de arrependimento. Thee franziu a testa profundamente, parecendo querer intervir, mas Plub balançou a cabeça com firmeza, sua expressão resoluta.
— Não há necessidade de se desculpar. Isso não foi culpa sua, Peach. — disse Plub, dando de ombros enquanto exibia um sorriso brilhante. — Embora eu saiba que você vai se sentir culpado de qualquer maneira. Mas sério, vou dizer de novo: isso não é culpa sua. Fico feliz em refazer todo o trabalho e, honestamente, todos os membros da equipe que sabem o que aconteceu concordaram que devíamos substituir o modelo. Aquele cara era um pé no saco total. Até o maquiador reclamava dele!
Peach piscou confuso, tentando entender o que ela estava dizendo. Pelo que se lembrava, Tawan não era particularmente terrível. Claro, ele era quieto e não a pessoa mais sociável no set, mas nunca tinha sido ruim o suficiente para justificar esse tipo de reação. Ele não era do tipo que criava confusão ou era falado pelas costas, pelo menos não pelo que Peach tinha visto.
— Não é tanto sobre ele como pessoa. — disse Plub, baixando a voz para o tom fofoqueiro de uma colega de trabalho pronta para contar tudo. — Mas quando se trata de qualquer coisa relacionada a Aran, ele se transforma na pessoa mais insuportável do planeta. Se a maquiagem é muito ousada, ele reclama. Se as roupas são muito reveladoras, ele reclama. É sempre alguma coisa! E essas são todas coisas que estavam escritas no contrato dele desde o início, se ele não gostou, por que assinou?
Peach assentiu em compreensão. Ele tinha experiência em primeira mão com as travessuras de Tawan no set sempre que Aran estava envolvido. Nesses dias, Tawan pairava implacavelmente, exigindo ver as fotos antes mesmo de a sessão terminar. Era irritante, para dizer o mínimo.
— Então, não teremos que lidar com ele fazendo birra depois? Quero dizer, você ainda precisa fotografá-los juntos por mais duas temporadas. — Apontou ele com um pequeno suspiro, já temendo o drama potencial. Plub, no entanto, apenas sorriu, completamente imperturbável.
— Ele é quem quebrou o contrato. Do que ele vai reclamar? — disse ela com um encolher de ombros despreocupado. — E se ele tentar causar problemas, eu corro direto para o Sr. Thee!
— Muito bem! Se você vier me contar da próxima vez, eu pago um chá de bolhas para você.
Thee continuou a coletar informações silenciosamente enquanto cozinhava diligentemente carne e vegetais, colocando-os no prato para a figura menor ao seu lado sem hesitar. Ele assentiu com uma expressão séria, claramente satisfeito por ter uma irritação a menos para se preocupar e feliz em aliviar o peso da pessoa ao seu lado. Peach, por outro lado, não fazia ideia do que se passava na cabeça do chefe da máfia, nem se importava em saber. Ele simplesmente decidiu desligar a conversa estranha, deixando-a passar enquanto se virava para conversar com a irmã. Com um pedaço de carne já nos hashis, ele disse:
— A culpa também é parcialmente minha. Da próxima vez, vou levar uns lanches para compensar.
Plub riu sem qualquer timidez e rapidamente deixou escapar o nome da loja de lanches que ela queria que ele comprasse antes de voltar a falar de trabalho.
— A propósito, acabei de ouvir que o novo modelo passou na entrevista. Buhnga acabou de mandar uma mensagem no grupo há pouco. Parece que eles já assinaram o contrato, e essa agenda está completamente aberta agora. Você pode marcar a sessão quando quiser.
— Espere, por que foi o Buhnga quem fez a entrevista? — Peach levantou uma sobrancelha, tentando lembrar o nome. Buhnga era o assistente da Equipe Três e estava competindo pela posição de líder de equipe antes de Wivit acabar conseguindo o cargo. Tecnicamente, deveria ter sido Wivit, o verdadeiro líder da equipe, lidando com a entrevista, certo?
— Aquele cara está fora da equipe. — respondeu Plub, sua voz ainda cheia de irritação, incapaz até de dizer o nome dele. — Na verdade, ele deixou a empresa completamente. Há um boato de que ele está sendo processado por fraude, mas não tenho certeza se é verdade.
Ambos os irmãos instintivamente se viraram para olhar para Thee, que respondeu com um aceno firme. Seus lábios se curvaram em um leve sorriso, mas seus olhos continham uma intensidade escura e inquietante.
Peach imediatamente se virou de volta e decidiu fingir que não tinha visto ou ouvido nada. Plub, por outro lado, parecia bastante satisfeita e mentalmente deu pontos extras ao chefe da máfia enquanto sorria para si mesma.
— De qualquer forma, dizem que o novo modelo é super fofo. Ridiculamente fofo. Tanto aparência quanto personalidade, nível superior. — Acrescentou Plub. Seus olhos brilharam enquanto ela ria, fingindo agir timidamente. A atuação exagerada era tão falsa que era quase encantadoramente irritante, o suficiente para fazer qualquer um querer apertar as bochechas dela.
Peach virou-se para Thee e disse que estava ficando cheio e que era a vez dele comer. Antes que pudesse dizer mais, Plub, que estivera em silêncio por um momento, falou de repente.
— Ah, a propósito. — começou ela, inclinando a cabeça levemente. — Aquele modelo disse que é um grande fã do seu trabalho, Peach. Ele realmente quer trabalhar com você de novo. Plub franziu a testa. — Eu ia perguntar onde você fotografou alguém tão bonito, mas aí pensei que é inútil, você tem clientes demais para acompanhar todos eles de qualquer maneira.
Peach tentou se lembrar de qualquer modelo particularmente marcante que tivesse fotografado recentemente. Uma imagem vaga surgiu em sua cabeça, um cara alto e de ombros largos que não podia ter mais de vinte anos, com traços nítidos e marcantes.
Mas... não, não poderia ser.
...
Mais tarde, Peach entrou na empresa com um grande saco de lanches, exatamente como prometeu. Bem, exceto por um pequeno detalhe, ele não tinha gasto um único centavo do seu próprio dinheiro neles.
Naquela manhã, como de costume, o chefe da máfia apareceu do lado de fora de seu apartamento. Depois de tomarem café da manhã juntos, ele casualmente informou a Peach que tinha trabalho fora do escritório pela manhã, mas estaria de volta à tarde. Antes de sair, entregou a Peach um enorme saco de lanches.
O saco era de uma padaria de luxo, do tipo que cobra quantias absurdas até pelas guloseimas mais simples. Peach congelou, encarando o saco, seu rosto uma mistura de confusão e descrença. Enquanto isso, o Sr. Thee estava calmo e composto como sempre, aparentemente alheio a quão ridícula a situação parecia.
— Você disse que traria lanches para eles, certo?
— Eu disse que eu compraria os lanches. — respondeu Peach com um suspiro impaciente. — E isso é caro demais.
— E daí? Lanches são lanches. Quem comprou não muda nada. — respondeu o chefe da máfia, parecendo quase ofendido que Peach parecesse pensar que ele tinha feito algo errado.
Peach só pôde revirar os olhos e relutantemente aceitar o saco, decidindo não discutir mais. Economizar dinheiro? Ele não ia reclamar disso.
Com o saco na mão, Peach dirigiu-se direto para a sala de reuniões compartilhada da equipe. No momento em que colocou o saco na mesa, a equipe invadiu como crianças em uma loja de doces, seus olhos praticamente brilhando de excitação com as guloseimas chiques.
— Peach, você comprou tudo isso para nós? — Plub perguntou animada, seu rosto se iluminando. Ela já sabia que seu irmão tinha prometido trazer lanches para compensar as coisas, mas não esperava esse nível de extravagância.
— É minha maneira de fazer as pazes.
— Espere, você realmente comprou isso? — Ela perguntou novamente, semicerrando os olhos para ele com um sorriso malicioso e conhecedor.
Pego no flagra, Peach soltou um suspiro resignado e assentiu. Plub caiu na gargalhada, claramente divertida, antes de mergulhar no saco para pegar sua parte sem a menor hesitação.
— Ah, a propósito. Peach! Este é o novo modelo que trabalhará conosco. — gritou um de seus colegas de equipe, acenando para ele. Peach a reconheceu como alguém da equipe de RP, era ela quem geralmente coordenava com os modelos para as sessões de fotos.
Pegando os dois sacos de lanches, Peach dirigiu-se a ela com a curiosidade aguçada. Ele viu uma figura alta conversando com outro membro da equipe. De costas, o cara parecia estranhamente familiar, embora Peach não conseguisse recordar.
Ele entregou um saco ao membro da equipe de RP e virou-se, esperando o novo modelo se apresentar. Alguns momentos depois, o cara se virou, revelando um rosto incrivelmente bonito com bochechas inchadas que lhe davam um charme jovem, quase infantil. Ele não parecia ter mais de dezessete ou dezoito anos.
Peach congelou por um segundo, seu sorriso vacilando de surpresa. O jovem, por outro lado, apenas sorriu mais largo, seus olhos grandes e brilhantes se estreitando em meias-luas alegres.
— Oi, Peach! Fico feliz em te ver aqui de novo.
— Kinn!
FIM DO CAPÍTULO